sexta-feira, 13 de maio de 2011

CONTO DE FÚRIA



Mastigo a língua da vida que nem se treme
Não há resposta murmúrio ou lamentação
Todas as coisas são de um vogar inequívoco
Do maléfico se tornando áureo a ser cobiçado
Quanta preguiça há em minha alma mesquinha
Na escolha dos cobertores ralos curtos e frívolos
Contentando se na gula que não agasalha o corpo
Que se descaminha no compasso dos dias curtos
Num canto quebrado e renegado ao pó que será
A lama na lãma da pia batismal do clérigo sinal
Não há esperança a buscar no infinito tão finito
Nesta soberba vazando-me por entre os dedos
E só contemplam meus olhos a supérfula beleza
Melhor seria encerrar-me no porão da lápide fria
A aturar a convivência da infame boçalidade
Não sinto orgulho em reconhecer minha torpez
Sou apenas um confessor da minha inglória
Das coisas miúdas registradas em pompa e gala
Falseadas na ilusão dos miseráveis de esperança
Cansei da glória dos homens e quero descansar
Repousar sereno aos pés de um riacho manso
Onde o murmurinho das águas quebram dóceis
Beijando gramíneas ao pé do seu leito de repouso.

Marinho Oliveira
13/05/2012

segunda-feira, 2 de maio de 2011

COVARDIA

Hoje me vesti da minha melhor roupa para ver a lua
 Estava com muita sede da prata vinda do céu
Atravessei os umbrais que sombriamente
enclausuravam-me em meus aposentos
como se a confundir-me a um morfético
Em passos cautelosos deslizei pela varanda
Como a lebre a despistar dos famintos por sangue
Pus-me no terreiro ainda tímido
como quem chega à festa sem convites
A minha cabeça vagarosamente
 iniciou um movimento pesado 
e sofrível por sobre os ombros
Por um momento pensei que o meu corpo
não a sustentaria por muito tempo naquele grau
Meus olhos lentamente foram se abrindo
 como se abrem as rosas nas madrugadas primaveris
Buscando no vazio deixado pelas profundezas
de um abismo espacial infinito
o recorte do cosmo por quem ansiava minh’alma.
Mas o céu se esqueceu de desenrolar e estender
o tapete azul e o chão de estrelas
A lua se deixou esconder
por uma camada de grossas nuvens
que produzia as mais íntimas trevas do inferno
Os raios cortavam em cicatrizes riscando em zes
o rosto do infinito sangrando-me aos olhos
Os trovões combinavam
sons de gingantes enfurecidos
Eram os deuses contrariados
com a minha sagaz e estúpida lucidez
 em querer me embriagar de fios dourados
Despi-me de quaisquer vaidades
que antes havia impelido-me a tal atrevimento
 A passos trépidos refiz o inverso
atravessei os umbrais para não ser devorado
 pelos cães do infinito sedentos de glórias
 De dentro do escuro quarto onde me refugio
pude ver quando a lua muito tarde e orgulhosa
se fez mostrar pela fresta da minha janela

 Marinho Oliveira
02/05/2012