quarta-feira, 12 de outubro de 2011

TABULEIRO

Estende-se o grande tapete na aurora da vida
A Velha Nefasta lança ao tabuleiro as suas peças
Que se alvoroçam em cavar o próprio destino

Umas são calmas quase sonolentas ou mórbidas
Outras são velozes vorazes e famintas de glória
Há também aquelas que se escondem ou desistem
Pois o jogo lhes parece injusto na sua disposição

Ah! A Velha Nefasta ri sacia-se da desgraça humana
O Caos é o alimento que a entorpece e embriaga
Ela enfastiada recolhe-se a preparar um novo embate
Encontra o homem nu sem forças de prosseguir em luta
...
Cede-se enfim!
Entrega-lhe a alma para repousar em paz 
Vencido de uma luta injusta e sem propósito de glória

Marinho Oliveira
12/10/2012

terça-feira, 12 de julho de 2011

TELEFONE



Toca o telefone
Insistentemente
Toca o telefone
Estatelam-se os meus olhos
Palpita-me  o coração
A respiração assustada e ansiosa
E toca o telefone
Insistentemente
Toca o telefone
Recomponho-me em meu leito
A escuridão é abismal
A mão direita se estende e curva
 sobre a minha cabeça
Buscando alcançar o grilo falante
Que sapateia entre o colchão
e a cabeceira da cama
E toca o telefone
Insistentemente
Toca o telefone
O bichinho é finalmente domado
Abro as suas asas
O seguro entre o ouvido e a boca
Ecoa meio rouco da minha caixa de ressonância
 um som peculiar e próprio meu: - pois não?
E ouço em resposta: - tudo bem com você?
É a voz da mulher amada que questiona
Preocupada do meu sono desavisado
Já não toca o telefone
Insistentemente
Já não toca o telefone
O bichinho de asas fechadas fora dormir
Eu, divagar-me em sonhos na noite escura e fria
Porque ela também fora dormir
Como é doce amar
Como é doce sonhar
Como é triste viver!

Marinho Oliveira
12/07/2012

ENIGMA




Por que amar tanto assim a uma só mulher
enquanto há tantas outras
pousadas em suas janelas
 e ansiosas por serem amadas?
Por que dedicar tanto assim da sua existência
 na expectativa de viver
um grande e exclusivo amor
enquanto há tantos outros amores 
prontos e ávidos por serem vividos? 
Por que dedicar de copo e alma 
a um único amor que não se ocupa de você
 enquanto há outros seres almas e corpos
 a esperar por alguém de quem se dedicar 
e trazendo nas palmas das mãos 
o amor do seu mundo?
:- Não olhes para mim
 não te darei resposta alguma! 
Se eu as soubesse, as perguntas, não faria.

Marinho Oliveira
12/07/2012

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O CAÇADOR DE SONHOS


... era uma vez, 
Um caçador de sonhos que andava pelas florestas encantadas caçando os sonhos perdidos para resgata-los, estudá-los, e assim encontrar uma fórmula que fosse capaz de torná-los novamente vivos e idealizáveis. De súbito, estacou-se junto ao pé de uma rocha que formava frente aos seus olhos um paredão coberto de verdes musgos e outras espécies vivas e raras. O caçador olhou para a rocha contemplando-a como se contemplasse um tesouro perdido e que acabara de ser encontrado. Olhou-a em todos os sentidos, para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, quando em um de seus movimentos pousou na íris dos seus olhos a mais linda de todas as flores até então vista por aquele caçador de sonhos. Ele ficou ali, parado, estático, por alguns segundos, e quem sabe por minutos. E o primeiro pensamento que lhe afligiu o cérebro quando recobrou do deslumbramento, foi o de a colher nas palmas das suas mãos para dar a ela novo endereço. Ficou ele na ponta dos pés e se esticou como se fosse um cipó, mas não alcançou a maravilha desejada. Refletiu por alguns instantes qual seria a melhor decisão e concluiu: - construirei um pequeno jirau e pronto, ela estará em breve nos meus domínios. Recolheu, então, no tempo, alguns elementos de que julgava necessitar; e assim, o seu jirau ficou pronto. Feliz de sua obra subiu sobre ele e se ergueu como antes, mas novamente o objeto de seu desejo estava fora do seu alcance. Ela fugia-lhe das mãos como que num capricho, sempre se posicionando um pouco além do seu alcance. Como um bom caçador que era, desses que nunca desiste, saltou do jirau e foi recolher novos elementos, para assim, aumentar a altura e elevar-se ao nível da flor que buscava colher. Fez isso repetida vezes até chegar à exaustão de seus músculos, e, sempre que erguia o jirau a flor aparecia um pouco mais acima naquele paredão de rocha coberta de verdes musgos. Esbaforido da infrutífera corrida em que se lançara sentou-se e do alto do jirau, agora, olhava o paredão de cima para baixo, para a esquerda e para a direita. Sentia-se desolado da altura em que se encontrava, distante da flor dos seus sonhos que parecia tão perto, quase ao seu alcance, e ao mesmo tempo, tão longe e inatingível. O caçador não entendia o porquê, da flor estar ali tão perto e não se permitir ser colhida por ele. Pensou tratar-se de uma ilusão provocada e advinda dos deuses para perturbar-lhe o espírito, e como não queria conflito, resolveu, cuidadosamente, descer do jirau que era alto. Pois não queria cair, não queria se ferir. Assim, ele foi descendo cuidadosamente degrau por degrau até que sentiu a ponta dos seus pés tocarem novamente o chão. Cuidou ele de desmontar a sua obra para não atrapalhar a outros, que por ventura, fossem se aventurar por aquelas invernadas de sonhos perdidos.  E para o seu espanto, bem junto ao pé do paredão, misturada aos musgos verdes, estava outra flor tão rara e bela quanto àquela exaustivamente caçada e perseguida por ele. Ela estava alí como se estivesse a esperá-lo a vida inteira. Então, o caçador olhou novamente para cima, contemplou no alto do paredão de verdes musgos aquela cobiçada flor que o fizera despender vigorosa energia, e agora à sua vista, ela já não estava mais tão bela, tão efusiva aos seus olhos. Ele sorriu de sua tolice, baixou na testa a aba do seu chapéu de palha, como o fazem as crianças envergonhadas dos seus atos. E altivo, apoiado na planta dos pés, curvou sobre os joelhos e estendeu cuidadosamente as mãos para colher nos braços a flor que estivera desde o princípio aos seus pés. Para cuidar daquela espécie rara que o escolheu, o caçador já não se embrenha mais nas florestas encantadas e de sonhos perdidos, mas também não reclama por isso. É imensamente feliz na sua nova forma de vida. Parece até não mais se lembrar das florestas por onde antes se aventurava. Porém, a flor sob o seu domínio, ele a mantém livre e com o devido zelo que é peculiar a todo bom caçador de sonhos. Contudo, uma coisa ainda lhe causa espanto: - é que a flor ao seu lado, a cada manhã fica ainda mais bela.


Marinho Oliveira
01/06/2012

sexta-feira, 13 de maio de 2011

CONTO DE FÚRIA



Mastigo a língua da vida que nem se treme
Não há resposta murmúrio ou lamentação
Todas as coisas são de um vogar inequívoco
Do maléfico se tornando áureo a ser cobiçado
Quanta preguiça há em minha alma mesquinha
Na escolha dos cobertores ralos curtos e frívolos
Contentando se na gula que não agasalha o corpo
Que se descaminha no compasso dos dias curtos
Num canto quebrado e renegado ao pó que será
A lama na lãma da pia batismal do clérigo sinal
Não há esperança a buscar no infinito tão finito
Nesta soberba vazando-me por entre os dedos
E só contemplam meus olhos a supérfula beleza
Melhor seria encerrar-me no porão da lápide fria
A aturar a convivência da infame boçalidade
Não sinto orgulho em reconhecer minha torpez
Sou apenas um confessor da minha inglória
Das coisas miúdas registradas em pompa e gala
Falseadas na ilusão dos miseráveis de esperança
Cansei da glória dos homens e quero descansar
Repousar sereno aos pés de um riacho manso
Onde o murmurinho das águas quebram dóceis
Beijando gramíneas ao pé do seu leito de repouso.

Marinho Oliveira
13/05/2012

segunda-feira, 2 de maio de 2011

COVARDIA

Hoje me vesti da minha melhor roupa para ver a lua
 Estava com muita sede da prata vinda do céu
Atravessei os umbrais que sombriamente
enclausuravam-me em meus aposentos
como se a confundir-me a um morfético
Em passos cautelosos deslizei pela varanda
Como a lebre a despistar dos famintos por sangue
Pus-me no terreiro ainda tímido
como quem chega à festa sem convites
A minha cabeça vagarosamente
 iniciou um movimento pesado 
e sofrível por sobre os ombros
Por um momento pensei que o meu corpo
não a sustentaria por muito tempo naquele grau
Meus olhos lentamente foram se abrindo
 como se abrem as rosas nas madrugadas primaveris
Buscando no vazio deixado pelas profundezas
de um abismo espacial infinito
o recorte do cosmo por quem ansiava minh’alma.
Mas o céu se esqueceu de desenrolar e estender
o tapete azul e o chão de estrelas
A lua se deixou esconder
por uma camada de grossas nuvens
que produzia as mais íntimas trevas do inferno
Os raios cortavam em cicatrizes riscando em zes
o rosto do infinito sangrando-me aos olhos
Os trovões combinavam
sons de gingantes enfurecidos
Eram os deuses contrariados
com a minha sagaz e estúpida lucidez
 em querer me embriagar de fios dourados
Despi-me de quaisquer vaidades
que antes havia impelido-me a tal atrevimento
 A passos trépidos refiz o inverso
atravessei os umbrais para não ser devorado
 pelos cães do infinito sedentos de glórias
 De dentro do escuro quarto onde me refugio
pude ver quando a lua muito tarde e orgulhosa
se fez mostrar pela fresta da minha janela

 Marinho Oliveira
02/05/2012

quinta-feira, 28 de abril de 2011

BORBOLETA AZUL

 

Nesta manhã ela estava lá  pousada em minha janela
Coberta em vestis tão ambiciosa, singela, leve e tênue
Que não me contive em fotografá-la continuamente nos olhos

Eu a vi empalidecer e não mais que isso, confesso: enrubescer!
Como cavalheiro que sou desviei o assunto disfarçando-se de mim
Para que na sua liberdade se recobrasse a tez natural

Não foram muitos os minutos em que meus olhos a suscitou
Desvairadamente procurava os motivos da nobre visita
Que displicentemente espreitava o sono furtivo desse mortal.

Ficamos ali parados um diante do outro como estátuas
Ela se manteve durante todo o tempo em absoluto silêncio
Nada me disse e também eu a ela nada perguntei

Foi num piscar de olhos aproveitando o leve sopro da brisa
Ela baixou as vestes até então erguidas como palmas aos céus
E sem dizer adeus voou, com certeza, foi pousar noutra janela
                                             
Marinho Oliveira
28/04/2012

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ALMA AFLITA


                     

Perdem-se os meus pensamentos numa nevoa fina e densa
Onde a vida não passa de mera e frágil sombra de um nada
No regozijo das coisas que se misturam e se separam de si mesmas
Num universo solúvel e inconstante de pensamentos e sonhos.

Em minha mente gargalham devaneios passados presente e futuros
Um sonho colorido perdido sonhado vivido nas trevas do imaginário
Nas gotas bafejadas de cachoeiras despencadas das alturas dos olhos
Na confusão do universo do verso que não se une e sempre si dissipa.

Estou cansado em vislumbrar as possibilidades da indisponibilidade
Do umbigo da ambição invejosa do alheio com o seu comprometido
Na métrica da ganância onde os passos são marcados e contados
E o ser não é nada além de um estado de estar postado em um ponto.

Nesse mistério onde revestido minha alma se refugia de si para si
Encontro apenas o calor gélido do sangue que fervilha nas veias
A clamar pela saliva do alheio a boca seca solfejando suspiros e canções
Canso-me de tudo, quanto tédio, desço os braços e finalmente durmo em paz.


  Marinho Oliveira
25/01/2012

sábado, 12 de março de 2011

VISITA INESPERADA


Nesta madrugada a natureza acordou-me. Sedenta de tormento debruçou sobre o meu leito, Estendeu suas garras, perfurou-me o abdômen, agarrou e impiedosamente torceu-me o intestino. Eu a fitei por alguns segundos e sem temê-la me atrevi:- Por que comparece a essa hora para atormentar-me? Com o escârnio que lhe é peculiar se escancrou e disse:-Não reclames ó mortal, o meu prazer vem da tua dor.

Marinho Oliveira
12/03/2011