Eu que raramente utilizo dos serviços
desses veículos coletivos - não porque sou rico ou coisa parecida, muito pelo
contrário, sou pobre e não me envergonho disso, de ser pobre - e para realizar
esse meu capricho de pobre, tenho às vezes que economizar no jantar como se
dizem por aí, e pelo andar dos preços dos combustíveis não tardará terei que
economizar também no almoço para me dar ao luxo de possuir um automóvel e utilizar dele. Pois bem, hoje foi um desses dias de raridade em
minha vida, utilizei um desses azuis que percorrem as nossas ruas e avenidas. A
coisa se deu porque eu tinha que resolver uns assuntos no centro da Capital e
que me tomariam umas quatro horas ou mais; também porque já estou indignado de
pagar dez reais por hora nesses estacionamentos que nos assaltam e nada podemos
fazer a respeito. A cidade constrói Bulevares, cobrem o Arrudas, mas não deixa um pequeno espaço se quer para estacionamento. Fazem calçadas de três metros e
elevam a tijolos e concreto jardins que impedem os pedestres e gera a impossibilidade de se criar estacionamentos nas vias públicas. Mas deixa isso pra lá. O fato é que
cheguei ao local de parada do ônibus e alí permaneci estático, plantado de pé
por uns quarenta minutos. Quando o lotação apareceu eu já contava com a
silenciosa companhia de mais umas quinze pessoas que foram chegando enquanto eu
ali estava de plantão. Ele parou abruptamente, as portas ao serem abertas
bateram fortemente em alguma coisa que não sei o que é, mas fizeram um barulho
forte como se nos aplaudissem. Quanto fui subir os degraus para alcançar o
interior daquela nave, levei uns empurrões e mesmo sendo o primeiro a chegar ao
ponto, acabei por ser um dos últimos a ter o direito de fazer parte daquele rebanho junto aos
outros viajantes. Uma vez alí dentro, me sentí um ser de outro planeta, um ETE. Todos
pagando as passagens com cartões magnéticos e eu em espécie. Usei de uma
nota de dez reais que a entreguei ao cobrador; esse, olhando-me de cima a baixo
e de forma estranha como a reprovar minha atitude encheu-me de moedas de valor miudo. Então, pensei
comigo mesmo: na volta eu as dou novamente a você, idiota! Guardei-as calado no
bolso que me fez entortar a calça pelo peso. E entre solavancos e empurrões que
aquela máquina sem educação e princípios aplicava impiedosamente a mim e em
todos os demais passageiros, caminhei pelo corredor e quando ia me sentar em um
dos bancos, fui quase atirado ao colo de uma senhora que estava ocupando a
outra poltrona vizinha a escolhida por mim, até então vazia. Eu, meio que
desconcertado, olhei para ela e pedi desculpas com um sorriso curto por entre
os dentes. Penso que ela percebeu o meu desconforto e gentilmente desculpou-me e ainda tentou aliviar a minha culpa com algumas palavras, que pelo meu
acanhamento do momento, não me recordo mais delas. Eu, depois de me acomodar na
poltrona para não ser nocauteado pela violenta máquina e refazer da viagem uma gafe,
baixei a cabeça e fechei os olhos respirando fundo enquanto imaginava,
introspectivamente, o por que daquela minha insanidade em deixar na garagem o
carro para ir de ônibus. Cheguei mesmo a imaginar que eu merecia passar por
todo aquele constrangimento. Não me lembro por quanto tempo esses pensamentos
tomaram conta e dominaram a minha consciência. Sei que quando abri os olhos e
ergui a cabeça foi como se eu estivesse acordando de um pesadelo para pousar
os olhos nos jardins do paraíso. Acreditem vocês: estava parada junto à roleta,
frente ao cobrador, não uma mulher, mas sim uma semideusa. Não estou
exagerando, acreditem! Era uma mulher de mais ou menos um metro e setenta,
idade variando entre os vinte e nove a trinta e quatro anos. Estava vestida de um
tailleur e um sapato preto a meio salto, cabelos nos ombros, pernas torneadas e
panturrilhas alongadas, quadris perfeitos, cintura à moda, seios fartos e sem
sobras, queixo com covinha, maxilar avermelhado, olhos cor de mel, nariz
aquilino, testa... Eu diria: mulher nota mil! Certo é, que, ao deixar a roleta
ela caminhava pelo corredor do ônibus como se flutuasse em uma passarela. Me
encantei com os seus movimentos no caminhar e me exitei por um instante, quando
pensei em ser cavalheiro e me levantar para ceder a ela o meu lugar, um outro
mais astuto e extrovertido já o havia feito. Ela não se fez de rogada, sentou-se, ergueu os olhos, sorriu e docemente agradeceu a gentileza. O Espartano se postou de pé ao seu lado, uma
das mãos segurando o umbral da poltrona e a outra firmemente agarrada na haste
metálica presa ao teto do gigante deixando a exibir os seus bíceps como numa
postura de guarda-costas em filme hollywoodiano. Então, baixei novamente a cabeça e
voltei aos pensamentos de antes. Só que agora um outro pensamento se intrometeu
nas minhas divagações e me pus a pensar o quanto uma pessoa tão bela pode vir a
ser infeliz. Fiquei a imaginar aquela mulher daqui a uns quinze anos, já
casada e mãe de uns dois, três filhos ou mais. Pensei nela parada em frente ao
espelho olhando a si mesma e contemplando as suas pernas já prejudicadas
pelos vasos sanguíneas e desenhada de pequenos mapas; as nádegas agora perfeitas
e há esse tempo tomada pelas celulites; a cintura ora de manequim já dobra por
sobre o púbis e as estrias que insistem em se exibir e estirar; os seios que não mais
contemplam as estrelas, mas acanhados e descidos pela ação do tempo e a
amamentação olham agora a ponta dos pés; o rosto agora rubro já encontra-se desmaiado
e tomado de marcas impressas pelo tempo em uma pele já ressecada e adornada por
manchas do sol. Subitamente, ao perceber o quanto uma pessoa tão bela poderia
ser tão infeliz com o passar do tempo, fui acometido de uma alegria imensa! É
que percebi, que nós, os feios, levamos uma formidável e grande vantagem sobre
os belos. Pois enquanto a nossa feiúra aumenta, a beleza deles só diminui.
Marinho Oliveira
15/10/2012
15/10/2012