sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PORTAS





Encontra-se a minha língua azeitada e escorregadia na saliva molhada da minha boca a espreita da primeira oportunidade para gritar e proclamar ao mundo a sua independência. E padece, pois a oportunidade nunca vem. E ela continua em seu universo alojada na cela úmida da cavidade bucal, encerrada e vigiada por enormes dentes ávidos a devorá-la caso insista em cometer essa insanidade.

Os meus olhos refletindo um brilho triste também se contentam em contemplar a beleza do universo espelhada das estrelas, da lua e do sol, que parecem como se pendurados no teto azul de uma sala de brincar; e o vento e a brisa a roçar nas folhas acariciando-as num sussurro de cantiga de ninar; as águas do mar num balanço ora agitado ora preguiçoso em um bamboleio descontraído a se quebrar na encerrada da areia branca pisada de nossos pés. Mas, pobres dos olhos meus que estão sempre vigiados por enormes cílios que mais parecem Flechas Espartanas e pálpebras que cuidam em se fechar sempre que eles se atrevem a ir mais além do que se pode ver. Até mesmo na hora do sono elas se fecham para impedir que eles se lancem a outros mundos.

O meu coração agitado e lépido sempre a bater desesperadamente, amarrado por enormes cordas que o prendem ao meu corpo, escravizando-o a um trabalho forçado  ininterruptamente a todos os segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos em que eu estiver vivo; e nessa luta aflitiva ele quase arrebenta o meu peito alucinado em atravessá-lo para contemplar de perto o universo sonhado. Mas está encarcerado e trancado na caixa do meu tórax, o seu trabalho continuará até que ele desista de lutar pela liberdade e resolva, enfim, dormir.

O sangue que circula no meu corpo é como as águas dos rios e dos mares que nunca descansam, estão sempre desesperadas, apressadas a procura de uma fuga que quase sempre nunca vem; às vezes quando minha carne se rompe levemente em acidente uma pequena porção se aventura na fuga e logo é contida e se perde. Enquanto o restante continuará retido e na corrida por todo o meu corpo nessa busca incansável de uma porta para outro universo.

Assim é a vida, cheia de portas, que mesmo estando abertas nem sempre são amigáveis ou estão prontas a serem atravessadas por nós; e muitas das vezes, quando se abrem, nem sempre é o convite que esperávamos.  Precisamos medir com cuidado, com muito cuidado caso o nosso objetivo, necessidade ou até mesmo a nossa curiosidade nos impulsione a passar por elas; pois uma porta pode tanto nos proteger ou nos lançar à glória, ou se transformar em terrível armadilha para nos devorar. Assim são as portas, todas elas, muito pouco confiáveis. As portas humanas, são de todas as portas, as menos confiáveis e as mais letais.  

Marinho Oliveira

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

SAPINHO SAPECA




Pula sapeca sapinho pula

Sapinho sapeca só quer pular

E de tanto que pula o sapinho

O danadinho vai se cansar

Ele pára respira estica e alonga

O sapeca sapinho vai se situar

Faz tanta tropelia o danadinho

Acho que ele quer me enganar

Outra vez se posiciona o sapeca

Arregala os olhos parece que vai

Desta vez o sapeca sapinho pula

Coitadinho se escorrega e cai.

21/10/20101
Marinho Oliveira

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

INFERNO DE AMOR





Ah, meus amigos

Que os deuses os livre e guarde

De um amor não correspondido

Amor de mão única

É como punhal que feri dilacera

É ferida que não cicatriza

Porque é rasgada na alma

É um prego na planta dos pés

dentro de um sapato apertado

Mas como é bom amar

Somente aquele que ama

Ao final do seu tempo poderá dizer

Que valeu a pena passar pela vida

Que a vida não foi um marasmo

Que viveu no amor

As convulsões revoltosas

Nos remansos das ondas

Dos sentimentos de um mar bravio

Mesmo que tenham amado sozinhos


Amem! Vivam!

Se preciso for chore por ter amado

Sofrido, sido esquecido e abandonado

Mas não chore pela secura da vida

Mergulhado no deserto que criaste




Marinho Oliveira
19/12/2013












segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

BALADA DA NOITE




À noite me atormenta e não me acalma vomitando no meu travesseiro esse hálito quente e fedido dos restos putrefatos e não digerido desses homens mortos de riqueza e ganância.

Os meus pés continuam frios mesmo enfiados na fornalha onde o fogo não se apaga e as brasas são o alimento das criancinhas raquíticas moribundas esqueléticas a sugar no peito das mães suor e dor porque leite alí já não há.

Os meus olhos há muito estão cegos por não enxergarem por trás das cortinas paredes muros cofres a fórmula onde tudo se refresca no banho deleitado das abelhas no néctar das flores.

Sinto que o meu coração pulsa mas não bate pois encontra-se afogado no sangue dos seus mares e rios contidos em leitos aureolados onde tudo é menos e mais mistério que a própria vida.

Dentro de mim tudo queima pois o vomito ora é engolido ora expelido pelas cavidades superiores que involuntariamente trabalham contra mim nesse mísero momento aflitivo.

Lá fora ouso pássaros assoviando uma melodia angelical onde a suavidade dos seus cantos se comunga num belo hino de redenção ao último suspiro desse filho da terra ao verme pensante.

O meu leito já não é mais a cama onde antes o meu corpo para descansar mas onde desceu por uma noite e agora é de madeira ornamentada a tampa fechada e vidro transparente sobre a face.

Mãos que nunca antes me tocaram seguram firmes as alças do meu novo leito enquanto caminham taciturnos por entre a floresta de jazigos onde finalmente serei depositado em nova moradia.

Ouso cordas rasparem nas madeiras do meu eterno leito e entre solavanco percebo estar sendo descido ao primeiro andar de onde nunca mais ouvirei vozes lamentos ou preces finalmente.

Tudo está escuro e ninguém mais encontra-se ali somente eu e o meu corpo que começa a exalar o mesmo hálito de quando a noite passada ao me visitar inesperadamente se apaixonou a enamorar de mim e a me levar consigo.

Aquele fogo já não queima o meu interior os meus pés saíram da fornalha o ar não me faz falta menos ainda às pessoas e o meu corpo sente leve beliscões que me provocam uma sensação de cócegas nunca antes sentida.

Sei que posso quase chegar ao êxtase com essas carícias movimentos que o meu próprio corpo produz de si para si numa curiosidade tamanha em saber da intensidade.

Não se preocupe pois você não será esquecido e também terá o seu momento de beliscões na carne em porções de cócegas na putrefação .


Marinho Oliveira







quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

BRINQUEDO ÀS AVESSAS


Ah, meus amigos! A vida, às vezes, nos parece como a um brinquedo sem graça, que para nos distrair e nos enganar a todo momento se camufla mudando de cor, som e formas. E o pior disso tudo é quando o brinquedo escolhido somos nós para nós mesmos. Às vezes pensamos que o fardo é muito pesado e que não seremos capazes de suportá-lo até cruzarmos a travessia da montanha; mas nos enganamos quanto a isso também. A vida é ardilosa! Pois vêm os primeiros segundos de angústia e solidão, os minutos seguintes, as horas, os dias, as noites, semanas, meses e até anos; de repente estamos dando os primeiros passos, mesmo que miudinhos pela descrença e cansaço do corpo. Quando menos esperamos a coisa toda já foi superada, aquele fardo já ficou para trás e pouco nos lembramos dele. Outros já nos foram entregues e estamos agora caminhando a passos largos rumo a outras montanhas e outras travessias. E daquele fardo pesado e do brinquedo sem graça de que fomos feitos naquele momento passado, só nos restam às cicatrizes que nos fazem ainda mais, belos e fortes enquanto pessoa. Mas não se engane, tudo isso é o brinquedo construído em todos nós. Não sei da vida de ninguém, pois não tive a honra de ser convidado para esse banquete. Falando a verdade bem de perto ao seus olhos, pouco sei da minha própria vida. Pois ela parece estar sempre a se esconder de mim. Mas acompanho a vida ao observar a lua, o sol e as estrelas que ficam a rodopiar nas alturas disfarçando sobre as nuvens para nos analisar. Por isso, nun
ca teremos a oportunidade de brincarmos sozinhos com o nosso brinquedo que é a vida em nossa longa ou curta jornada. Sempre teremos mãos ocultas e invisíveis estendias para nos reerguer e também para nos afundar conforme suas vontades. Se um dia pousar em sua janela um belo pássaro a cantar, expulse-o de lá, ponha-o a voar, ele está querendo enfeitiçá-lo e levar seu encanto para a fábrica dos brinquedos que não são recuperados. Mas não deixes nunca de observá-los quando estiverem eles a voar nas alturas em múltiplas arribações, tentemos segui-los mesmo sem ter asas. E que voemos todos nesse nosso brinquedo que é vida antes que ela se quebre por puro divertimento de nos enganar.


Marinho Oliveira


A MALDIÇÃO




Hoje os meus olhos trouxeram-me os mistérios ao dissipar, desnudando toda a nuvem reluzente das belas Catedrais. Tudo se deu muito rapidamente, como num raio a descer dos céus, no momento em que os meus olhos se cruzaram nas cruzes do alto das torres e que eram mais de uma.

Vi brotar daquelas cruzes do suntuoso cume da edificação, sangue que borbulhava em torrentes borbulhões. E não era o sangue de cristo vindo do morro do calvário fruto de sua crucificação. Era  sangue dos miseráveis puro sangue de os nossos irmãos. 

O sangue descia como chuva refazendo a coloração, paredes antes brancas transformando-se agora em vermelho da mais pura vermelhidão. E aquele sangue se espalhava dominando a ocasião. Tinha sangue nos umbrais, janelas, portas, púlpito, teto e altar; tinha sangue até no sagrado cálice e na hóstia na consagrar.


O religioso extasiado, ensandecido foi ao sangue se banhar, em toda aquela abundância que até na calçada deitava a se acumular. Ele gritava como besta no banquete a deleitar: mais, mais, mais meus irmãos; vamos todos mais sangue doar. 

Neste instante a lucidez retomou-me a consciência, e, dos meus olhos gotejando angustia, eu vi, que aquele sangue era o sangue dos miseráveis que abstinham de se alimentar a si e aos filhos, porque o vampiro, a besta precisa festejar.



Marinho Oliveira

12/12/2012




INSÔNIA





O que a insônia faz conosco! Nesta madruga em meio as minhas reflexões, comecei a divagar sobre as espécies animais desse nosso planeta e que são do meu conhecimento; pois há milhares que das quais não faço idéia da sua existência dada a minha ignorância. Mas, sobre as espécies existentes e que são do meu conhecimento. Desses, poucos são os chamados solitários, mas quando encontram com um de sua espécie não o ataca, ignora e segue o seu caminho. Pois é, realmente, somos um tipo de animal muito diferente. Será, que, talvez seja porque pensamos? É. Deve ser isso! Pois desde cedo nossos pais nos ensinaram a não falar com estranhos; que deveríamos desconfiar das pessoas e de suas intenções, mesmo quando elas nos parecessem boas, porque poderia haver aí uma segunda ou terceira intenção que seria a de nos prejudicar. Pois bem, assim crescemos e nos tornamos independentes e corajosos! Quando estamos caminhando durante o dia em uma via pública e de muito movimento, esbarramos e até trombamos uns nos outros; fazemos cara feia e até mesmo sem muito esforço para isso. Outras vezes nem olhamos para nos desculpar da nossa imprudência; pois está claro, é dia, e somos muito corajosos e atrevidos para nos desculpar com o semelhante. Acontece também nos espaços públicos onde nos reunimos em grande número para comemorar ou protestar alguma coisa. Mas, à noite a coisa muda! A nossa coragem desaparece e deixamos de ser adultos valentões e voltamos a ser criança medrosa do bicho papão embaixo da cama ou dentro dos guarda-roupas. Se estamos caminhando sozinhos a noite, nos mesmos lugares que caminhavamos corajosamente durante o dia, e ao olharmos para trás percebermos a presença de outro, ao invés de diminuirmos o passo para sermos dois e caminharmos juntos, apertamos o passo para fugir do semelhante que poderá ser, na nossa imaginação, um que nos ofereça risco de danos materiais ou morte. Vemos no outro uma besta selvagem! E se outro surge em sentido contrário ao nosso, já nos preparamos para um possível ataque. Só nos aliviamos quando ele, também desconfiado, procura passar mantendo certa distância do nosso ponto de caminhada. Somos realmente um bicho muito estranho! Os outros animais se acasalam para procriarem; nós nos acasalamos por puro interesse material ou por tesão, prazer pelo sexo; mas para amenizar damos a isso no nome de amor que finda quando acaba o tesão pela pessoa ou objeto do interesse disputado. E depois de ler uma meia dúzia de livros escritos por esses mesmos animais que falam, pensam, e por isso são chamados de racionais começamos a pregar a paz mundial e a fraternidade entre os mesmos. Alguns rezam e oram o dia inteiro, mas quando param para descansar dão ordens para lançar bombas, foguetes e mísseis para matar o semelhante, só por não comungarem das mesmas idéias e objetivos. Somos esse tipo de bicho. Todos nós! Goste você ou não, também faz parte desse mesmo universo ainda que não tenha consciência disso. E o mais irônico disso tudo é que ao elegermos alguns desses animais para administrar a nossa colônia e cuidar do nosso coletivo, ainda esperamos por parte deles honestidade e generosidade para com os demais. Não é muito estranho, engraçado e até mesmo bizarro isso? Bom, fico pensando: talvez seja porque somos racionais. É. Deve ser isso!


Marinho Oliveira
13/12/2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

LACAIOS DA MISÉRIA




Hoje enquanto caminhava pela cidade... eis que de repente, vindo do nada, como uma sombra, um augúrio, como quem a germinar do chão diante dos meus olhos aparece uma alma miserável e infecta.

Suas vestes que foram um dia de cor clara, tinham agora a cor avermelhada da impregnação do pó da terra e da falta de zelo e dos bons cuidados de almas puras.

Trazia o miserável no domínio da mão direita, em frangalhos, um livro de capa preta considerado sagrado; no sovaco esquerdo um periódico vencido; mais abaixo, suspensa no ar como plumas ao vento e travada pelas pontas dos dedos cor de chão, uma garrafa de aguardente que da qual já se havia sugado mais de dois terços.

Aquela sombra era peculiar, singular em todas as exibições; a uns três metros adiante de mim, caminhava lentamente, parava, grunhia em resmungo incompreensível alguma coisa, dava um pulinho, corria uns três passos, estacava-se novamente, depois repetia toda a estripulia sem dar conta do mais.

Esse bazar frenético perdurou por uns três quarteirões até atingirmos a porteira humana da Avenida Afonso Pena e que nos permite convergir para a Avenida Amazonas; alí o seu espírito estacou como um asno assustado.

Foi como se alí houvesse um grande fosso com águas profundas, habitadas por enormes crocodilos ávidos a devorar quem se atrevesse atravessa-lo sem a prévia licença das feras.

Uma imensa curiosidade arrebatou-me até à parede de uma edificação de esquina, onde recostei para observar o gigante vindo das sombras e que atormentava o meu instante.

Ele permaneceu imóvel por uns cinco minutos, como uma estátua de pedra a fitar os próprios pés descalços; julguei voltar-lhe a memória nesses longos minutos misericordiosos.

Engano. Súbito, virou-se bruscamente, caminhava agora em ziguezague, em xis, em zes, indo e vindo como num balé dançado por rãs e sapos; e de repente estacou-se novamente, abriu os braços em forma de cruz, despencou do sovaco ao solo o periódico vencido inundado de suor fedido a consciência impura.


Mas ela continuava firme nas mãos do pregador presa e suspensa no ar pelos dedos da mão esquerda a bendita garrafa de aguardente; na outra mão, a direita, o frangalho sagrado; ele respirou fundo e começou a esbravejar aos céus e aos infernos o bom e o mau tempo dos homens nesta terra e tudo era desconexo.

A sua voz enrouquecida, apesar da altura e do grave tom, era um eco surdo perdido na multidão; mas continuava a urrar em altos brados, queria a tenção dos desesperados que se atropelavam e não ouviam nem viam o miserento a clamar por justiça em suas preces satânicas aos deuses surdos.

Naquele momento insano, era ele o mais sábio dos deuses e falava a língua dos anjos e demônios, tinha a chave e o poder; o suor que lhe brotava das têmporas e minava pelos poros escorria e molhava-lhe as vestes, exalando odores ardentes e febris, enquanto suas narinas largas e gananciosas engoliam as fuligens defecadas pelos canos das descargas dos gigantes que despencavam pelas avenidas.

Aquela convulsão da miséria aflitiva, onde a liberdade se confunde com a realidade epilética às avessas, trouxe-me a agonia amarga na vertigem que se confundiam no fastio da ânsia e no vômito do alimento não digerido pelo homem ungido de mente sã e vivente das trevas.

Arrebatei-me sem olhar para trás; naquele instante tive a consciência que a areia movediça e a lama que borbulha sob os pés daquela alma escrava, somos todos nós; conscientes ou não, somos o inferno da miséria do céu sobre a terra a ser de todos nós  a ser expurgada de nós.


Marinho Oliveira
08/12/2012





domingo, 2 de dezembro de 2012

REFLEXÃO


BOIADA

“Nesses tempos
modernos e de pura
alienação, onde o ser humano
tornou-se mero instrumento à cobiça
do alheio, só será visto em praça pública
em meio a multidão, aquele que despir-se de
suas vestes à plantar bananeiras. Pois, todos nós, nos
tornamos apenas mais uma cabeça desse imenso rebanho,
caminhando cegos e resignados, seguindo nosso destino rumo ao
abatedouro de homens, para entregar nossas almas à quem mais pagar.”




TRAÇOS

"Em minha
santa ignorância
ou por entender que
quando classificamos alguém
alicerçados em nossa observação
do conjunto de caracteres formadores
de sua compleição física - a que chamamos
de traços – estamos usando de uma visão estereotipada
e até mesmo primitiva para avaliar a outrem. Pois não há
outra senão uma única raça humana sobre a terra. Talvez, até
possa existir, mas em outro planeta e ainda não os acessamos.”





TEMORES
“A vida
ensinou-me a
não temer os raios, o
mau tempo, a tempestade
ou até mesmo a própria vida.
Menos ainda temer o fantasma da
morte que nos rodeia o tempo todo e em
todos os lugares. Mas, ensinou-me a temer os
os homens por não sermos plenamente confiáveis"



A TERCEIRA MARGEM

"Muitos
ao saírem de 
casa têm medo de
nunca mais voltar. Mas
é bom que se saiba, que mesmo
estando em casa muitos jamais voltarão.
Pois a terceira margem do rio poderá ser, para
sempre, os braços que os abraçam, que os envolvem
e acolhem impiedosa e silenciosamente seus corpos num leito
gélido e pálido. Pois a vida, nem sempre é justa aos olhos do homem"

                                                                                                                             Marinho Oliveira

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

COISAS ESTRANHAS







Gosto da solidão de estar sozinho
Entre mil pessoas que não me veem
Gosto da solidão dos salões de festas
Onde palavras e risos são ecos ao vento
Gosto da noite que silenciosamente
Rompe desvirginando o glorioso dia
Gosto da madrugada a se lavar do ato
Da escuridão à claridade ao recomeço
Gosto das estrelas penetrando as nuvens
Da lua envergonhada a se esconder do sol
Gosto da menina moça virando às esquinas
E homens embriagados do seu doce perfume
Gosto dessa vida medonha que nos inferniza
Dos sonhos de menino evaporados no tempo
Gosto do fingir senil e da lucidez dos velhos
A abraçar por fim, o sagrado direito da paz

Marinho Oliveira
24/10/2012

SE EU FOSSE POETA



Se eu fosse poeta iria numa epopéia narrar o mundo e seus mistérios. Falaria do amor verdadeiro puro e sincero, essas coisas estranhas que os homens dizem sentir; dos encantos e feitiços atribuído às mulheres mas que elas adoram ouvir. Ah, gostaria de descrever as crianças como sendo a esperança da raça! Também os animais e seus encantos. sim! Esses eu os descreveria como a fonte de toda inspiração; cantaria aos ventos que sopram as árvores sem nada cobrar, apenas pelo prazer de dar carinho e o calor aplacar. Gostaria de narrar em verso e prosa todos os encantamentos do alto, do fabuloso piloto da lua que todos os dias de ponta a ponta cruza o nosso céu e nunca cochilou deixando-a colidir num asteroide. As estrelas que cintilam aos nossos olhos como brasa nos fogões de lenha nas cozinhas das agitadas fazendas; das nuvens infantis brincando na disputa salutar em transformar-se em castelos, árvores, edifícios, bichos e dragões. O sol que queima o dia inteiro como uma fornalha infernal, mas que ao chegar a noite recolhe as suas chamas para no bailar das estrelas poder a lua enamorar. Mas, o que mais me intriga nesse ornamento magistral é a terra girar a trezentos e sessenta graus e as águas do mar não derramarem sobre as nossas cabeças. Como isso é mesmo possível? É mesmo muito estranho isso. Ah, se eu fosse um poeta, a resposta, aposto que saberia!

Marinho Oliveria
24/10/2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

BELEZA x FEIURA

                                      


Eu que raramente utilizo dos serviços desses veículos coletivos - não porque sou rico ou coisa parecida, muito pelo contrário, sou pobre e não me envergonho disso, de ser pobre - e para realizar esse meu capricho de pobre, tenho às vezes que economizar no jantar como se dizem por aí, e pelo andar dos preços dos combustíveis não tardará terei que economizar também no almoço para me dar ao luxo de possuir um automóvel e utilizar dele. Pois bem, hoje foi um desses dias de raridade em minha vida, utilizei um desses azuis que percorrem as nossas ruas e avenidas. A coisa se deu porque eu tinha que resolver uns assuntos no centro da Capital e que me tomariam umas quatro horas ou mais; também porque já estou indignado de pagar dez reais por hora nesses estacionamentos que nos assaltam e nada podemos fazer a respeito. A cidade constrói Bulevares, cobrem o Arrudas, mas não deixa um pequeno espaço se quer para estacionamento. Fazem calçadas de três metros e elevam a tijolos e concreto jardins que impedem os pedestres e gera a impossibilidade de se criar estacionamentos nas vias públicas. Mas deixa isso pra lá. O fato é que cheguei ao local de parada do ônibus e alí permaneci estático, plantado de pé por uns quarenta minutos. Quando o lotação apareceu eu já contava com a silenciosa companhia de mais umas quinze pessoas que foram chegando enquanto eu ali estava de plantão. Ele parou abruptamente, as portas ao serem abertas bateram fortemente em alguma coisa que não sei o que é, mas fizeram um barulho forte como se nos aplaudissem. Quanto fui subir os degraus para alcançar o interior daquela nave, levei uns empurrões e mesmo sendo o primeiro a chegar ao ponto, acabei por ser um dos últimos a ter o direito de fazer parte daquele rebanho junto aos outros viajantes. Uma vez alí dentro, me sentí um ser de outro planeta, um ETE. Todos pagando as passagens com cartões magnéticos e eu em espécie. Usei de uma nota de dez reais que a entreguei ao cobrador; esse, olhando-me de cima a baixo e de forma estranha como a reprovar minha atitude encheu-me de moedas de valor miudo. Então, pensei comigo mesmo: na volta eu as dou novamente a você, idiota! Guardei-as calado no bolso que me fez entortar a calça pelo peso. E entre solavancos e empurrões que aquela máquina sem educação e princípios aplicava impiedosamente a mim e em todos os demais passageiros, caminhei pelo corredor e quando ia me sentar em um dos bancos, fui quase atirado ao colo de uma senhora que estava ocupando a outra poltrona vizinha a escolhida por mim, até então vazia. Eu, meio que desconcertado, olhei para ela e pedi desculpas com um sorriso curto por entre os dentes. Penso que ela percebeu o meu desconforto e gentilmente desculpou-me e ainda tentou aliviar a minha culpa com algumas palavras, que pelo meu acanhamento do momento, não me recordo mais delas. Eu, depois de me acomodar na poltrona para não ser nocauteado pela violenta máquina e refazer da viagem uma gafe, baixei a cabeça e fechei os olhos respirando fundo enquanto imaginava, introspectivamente, o por que daquela minha insanidade em deixar na garagem o carro para ir de ônibus. Cheguei mesmo a imaginar que eu merecia passar por todo aquele constrangimento. Não me lembro por quanto tempo esses pensamentos tomaram conta e dominaram a minha consciência. Sei que quando abri os olhos e ergui a cabeça foi como se eu estivesse acordando de um pesadelo para pousar os olhos nos jardins do paraíso. Acreditem vocês: estava parada junto à roleta, frente ao cobrador, não uma mulher, mas sim uma semideusa. Não estou exagerando, acreditem! Era uma mulher de mais ou menos um metro e setenta, idade variando entre os vinte e nove a trinta e quatro anos. Estava vestida de um tailleur e um sapato preto a meio salto, cabelos nos ombros, pernas torneadas e panturrilhas alongadas, quadris perfeitos, cintura à moda, seios fartos e sem sobras, queixo com covinha, maxilar avermelhado, olhos cor de mel, nariz aquilino, testa... Eu diria: mulher nota mil! Certo é, que, ao deixar a roleta ela caminhava pelo corredor do ônibus como se flutuasse em uma passarela. Me encantei com os seus movimentos no caminhar e me exitei por um instante, quando pensei em ser cavalheiro e me levantar para ceder a ela o meu lugar, um outro mais astuto e extrovertido já o havia feito. Ela não se fez de rogada, sentou-se, ergueu os olhos, sorriu e docemente agradeceu a gentileza.  O Espartano se postou de pé ao seu lado, uma das mãos segurando o umbral da poltrona e a outra firmemente agarrada na haste metálica presa ao teto do gigante deixando a exibir os seus bíceps como numa postura de guarda-costas em filme hollywoodiano. Então, baixei novamente a cabeça e voltei aos pensamentos de antes. Só que agora um outro pensamento se intrometeu nas minhas divagações e me pus a pensar o quanto uma pessoa tão bela pode vir a ser infeliz.  Fiquei a imaginar aquela mulher daqui a uns quinze anos, já casada e mãe de uns dois, três filhos ou mais. Pensei nela parada em frente ao espelho olhando a si mesma e contemplando as suas pernas já prejudicadas pelos vasos sanguíneas e desenhada de pequenos mapas; as nádegas agora perfeitas e há esse tempo tomada pelas celulites; a cintura ora de manequim já dobra por sobre o púbis e as estrias que insistem em se exibir e estirar; os seios que não mais contemplam as estrelas, mas acanhados e descidos pela ação do tempo e a amamentação olham agora a ponta dos pés; o rosto agora rubro já encontra-se desmaiado e tomado de marcas impressas pelo tempo em uma pele já ressecada e adornada por manchas do sol. Subitamente, ao perceber o quanto uma pessoa tão bela poderia ser tão infeliz com o passar do tempo, fui acometido de uma alegria imensa! É que percebi, que nós, os feios, levamos uma formidável e grande vantagem sobre os belos. Pois enquanto a nossa feiúra aumenta, a beleza deles só diminui.

Marinho Oliveira
15/10/2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SIMPLESMENTE MULHER




Gosto de mulher de atitude e atrevida
Que me olha nos olhos enquanto me beija
No compasso dos corações a respirar ofegante
Enquanto suas mãos percorrem o meu corpo
Ávidas e sem pudor livrando-o das vestes
Deixando-o tão e igual ao dia em que nasceu
E nessa impetuosidade me arrasta para alcova
Já despida e insana como a Eva foi criada
Mergulhada em meus lábios trêmulos de desejos
E entre sussurros palavras gemidos unhas gritos
Suor e sal faz do meu corpo e do nosso sexo
O divino banquete celestial de sua alma.

Por isso, gosto de mulher e não de santas

Marinho Oliveira
10/10/2012

sábado, 30 de junho de 2012

CICATRIZES



Parece-me que tudo nesse Universo é uma conspiração, uma luta de seres imaginários, invisíveis, titânicos! Com poderes de nos colocar sobre um tabuleiro de xadrez e nos eliminar conforme o sarcasmo, o humor e a prepotência de cada um deles. Às vezes esses mesmos seres nos iludem, nos oferecem um pequeno agrado nos estendendo uma de suas mãos como se uma ponte para a nossa travessia do vale. E como criança, sorrimos, aceitamos, certos e confiantes na boa intenção de uma alma generosa e nobre. Mas logo em seguida revive em nós o pesadelo da Branca de Neve ao degustar de uma deliciosa e inocente maçã. Ah! Como eu gostaria de ter o meu passado apagado e poder recomeçar tudo de novo. Mas sei que tudo isso é uma utopia, quase um delírio! Não se faz uma cirurgia sem deixar cicatrizes. E me sinto como se nunca estivesse saído das mesas onde o bisturi do destino é o eterno e nunca se cansa de nos dissecar. Quantas marcas, quantas cicatrizes! E o mais triste de tudo isso é saber que muitas dessas cirurgias não me curaram o mal. Foram elas inúteis! Mas é a vida e o tabuleiro está posto. Sei que sou apenas mais uma peça exposta sobre a mesa a mercê do mais hábil jogador. E enquanto isso sigo fazendo planos e sonhos. Utopia? Talvez a própria vida o seja.


Marinho Oliveira
30/06/02012

CONFISSÃO







São três horas da manhã e outra vez estou sem sono. Será que isso é grave? Mas o bom disso tudo é que tenho mais tempo para pensar em você, na deusa dos meus sonhos e delírios. Ah, Se você tivesse noção do quanto eu a amo! Com certeza romperia com as barreiras para estar ao lado deste homem, que a trataria como a amada namorada, menina, mulher, amiga e companheira. E em nossa intimidade seriamos perfeitos amantes sem pressa do êxtase; pois o melhor de toda a nossa festa seria o banquete a ser deliciado um no corpo do outro. Seria o momento em que comungaríamos em nossa confissão a comunhão com o Universo e a junção do todo. Porém, eu sei, amar alguém é uma dádiva! Ser amado, talvez...


Marinho Oliveira
30/06/212

EU



Muitas coisas fazem-me confuso. Ou será que me tornei confuso por causa de muitas coisas? Penso que terapia para mim não é a solução. Talvez o confuso seja eu mesmo e não as coisas que perturbam-me; ou quem sabe o confuso faça parte do meu eu, da minha essência? E se assim o for, a confusão está em min e não nas coisas estranhas que permeiam o meu confuso entendimento. 

Marinho Oliveira
30/06/2012

UTOPIA



Que os deuses os livre e guarde de um amor não correspondido meus caros amigos! Amor de mão única é como um punhal que feri e dilacera, é ferida que não cicatriza pois é rasgada na alma. É como uma brasa na planta dos pés dentro de um sapato apertado. Mas como é bom amar! Só quem ama pode dizer que valeu a pena passar pela vida! Que a vida não foi um marasmo; que viveu as convulsões revoltosas e os remansos das ondas de um mar bravio dos sentimentos. Mesmo que tenha amado sozinho. Amem! Vivam! Se preciso for, chore por ter amado; mas não chore jamais pela secura da vida.

Marinho Oliveira
3/06/2012

domingo, 10 de junho de 2012

DOCE INFERNO






Como é doce e calmo o meu inferno! Se um dia você o visitar, jamais esquecerá as trilhas percorridas que para sempre ficarão eternizadas em sua memória; assim como o beijo terno da mãe dado ao rebento em seu primeiro suspiro. Ah, meus amigos! O meu inferno tem o perfume das flores, a doçura do mel, a suavidade do aroma da nevoa das manhãs penetrando o nosso olfato e paladar nos tornando seres unos. O meu inferno é o altar onde os deuses se reúnem para festejar o banquete da vida! Visite-o.



Marinho Oliveira
10/06/2012

terça-feira, 13 de março de 2012

SUBLIME MISTÉRIO

Gosto dos mistérios que trazem as mulheres no canto de seus olhos quando de um olhar de procura ou recusa; dos lábios semi-abertos na expressão de um meio sorriso tímido ou desavergonhado; das curvas de seus corpos que revelam-se sem jamais se revelar deixando à nossa imaginação a possibilidade da imagem a se criar;  dos seus braços como ponteiros de um relógio marcando suavemente o seu balanço como o vento nas flores ou nas ondas do mar; dos seus cabelos firmes ou tênues como as linhas de chuvas derramadas sobre os ombros; gosto da suavidade dos seus pés tocando a calçada vestidos de um salto Stiletto e possuídos de um equilíbrio que só o universo ou as mulheres o possuem. Mas o que mais gosto é de todo o conjunto; é da mulher e do seu espírito de ser.

Marinho Oliverira
13/03/2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O COMEÇO É O FIM


Debruço no ombro da vida para cantar e soluçar a morte
Abro os braços para me pregar na cruz dos homens
Escancaro a garganta para gargalhar da velha sombra
Cruzando as pernas sento-me para descansar do tempo

O suor que da minha fronte brota é de sal regado a água
O ar que expiro é o veneno exalado de um corpo não são
Os meus pensamentos são pontos que interrogam a mim
No clamor da verdade que nenhum mortal jamais elucidará

A vida não passa de um travesseiro onde repousa a soberba
Dos animais insanos vaidosos de sua razão sem racionalidade
Daqueles que proselitizam conforme o fruto que semeiam
Ao fazer da infelicidade alheia um trono seu próprio sentar

Não corro caminho sereno na certeza que algum dia chegarei
Ao ponto de partida onde largada éo princípio é o fim do começo
Onde as flores mortas colorem a vida daqueles que a perdeu
E juntos fenecem nos braços da mãe terra cobertos de vermes


Marinho Oliveira
07/02/2012