...era uma vez, em um castelo não muito distante, vivia uma linda princesa de longos cabelos negros e os seus sonhos de um dia se tornar uma bela e justa rainha. O seu esplendoroso castelo era margeado pelo vilarejo Trivarg, e tinham os seus alicerces incrustados entre as raízes das montanhas que circundavam aquele vale. Porém, o castelo era um tanto quanto estranho, não havia súditos nem servos e a princesa estava quase sempre sozinha. E, embora o conforto e a beleza dos seus aposentos beirassem aos encantos dos grandes e míticos contos imaginários, a sua única companhia no alto daquela torre de tão majestoso castelo - era a solidão. Mas ela não estava confinada em seus aposentos, como quase sempre acontece naqueles contos em que as madrastas são terríveis vilãs, e por ciúmes encarceram as enteadas por serem, geralmente, muito mais lindas do que elas. Não! A princesa não tinha madrasta e era livre como os pássaros, podia sair a hora que quisesse, quando e com quem quisesse. Para isso bastava apenas eleger alguma jovem senhorita ou senhora do vilarejo como dama de companhia, ou mesmo um corajoso cavalheiro para cortejá-la pelos arredores nas suas caminhadas matinais ou para contemplar a lua e as estrelas. Mas os dias foram passando e com eles vieram os anos, e a princesa que antes era muito feliz e vivia os seus dias a bailar por entre flores, a contar estrelas e asas de borboletas, começou a ter noites de insônia perturbada por um grande e terrível monstro que a visitava quase todas as noites; e, por fim, nos últimos tempos, também durante os dias, fazendo-a se perder na confusão dos pensamentos e devaneios. Ela, sempre alegre, delicada, doce como um anjo a passear por entre as nuvens de algodão, tentava agora, astutamente, convencer a terrível besta a deixa-la em paz; dizia-lhe gentilmente que aquele caminho apontado pela fera não era o seu destino. Estrategicamente, o monstro se afastava mas não se convencia. Mas, assim que a princesa se distraia ele sempre reaparecia, como se surgisse do nada, e cada vez mais ameaçador e aterrorizador. Até que um dia, esgotada as possibilidades do diálogo diplomático, decididamente ela armou-se de guerreira para enfrentar a besta-fera num duelo de combate e disposta a ir até as últimas consequências do seu ato. Ao perceber a intenção da princesa a fera se refugiou num pântano lamacento e destinado ao abrigo dos monstros. Corajosamente a princesa seguiu os seus instintos de guerreira. Para não chamar a do povoado do vilarejo, pessoas a quem a princesa estimava e não queria expô-las às ameaças feita pela fera, dada a sua perigosa decisão, ela resolveu agir em segredo. Também, o que a instigava a agir silenciosamente era o fato de que, aquela gente, embora humilde e de bom coração, sempre demonstrara muita curiosidade em relação à vida alheia; e, principalmente, quando se tratava da vida de uma princesa e dos seus entretenimentos e planos. Naquela tarde ela entrou no castelo como sempre o fizera, trancou as portas, as janelas dirigindo-se aos seus aposentos no alto da torre. E todos do vilarejo que tinham as suas atenções voltadas para ela, tiveram a certeza de que a princesa ia descansar. Pensaram que ela ia dormir e desviaram os seus olhadres daquela edificação. Mas, astutamente, ela organizou três malas com roupas, suprimentos e tudo mais que ela supunha precisar na batalha que pretendia travar contra a fera que a atormentava. Preparadas as malas, a princesa amarrou-as em uma longa corda e as lançou torre abaixo, descendo-as cuidadosamente para que não se espatifassem ao tocar o chão; depois, retirou do esconderijo secreto a sua armadura que havia sido construída por um velho bruxo, amigo dos seus pais e lhe dado de presente por ocasião do seu aniversário de quinze anos. Era uma armadura que a tornava invisível aos olhos dos homens e que a protegida de todo mal. A princesa vestiu-se dela, a armadura magicamente se ajustava ao seu corpo como as luvas nas mãos, empunhou o escudo de bronze, pendurou nos ombros a tiracolo o arco e as flechas de pratas, esgueirou-se sorrateiramente escada abaixo por entre o túnel de folhagens que recobriam os degraus da escada do alto da torre até a relva verde que cobria a terra aos seus pés. Naquele momento um só pensamento passa pela cabeça da linda princesa: vencer o monstro que a perseguia e retornar feliz para o seu castelo como se nunca houvesse se ausentado dali. E assim, bravamente a princesa vai dar início a sua épica jornada na batalha que iria travar para exterminar a besta-fera que insistia em importuná-la; primeiramente em seus sonhos, depois, até mesmo nos seus momentos de alegria quando ele misteriosamente surgia assumindo a forma disfarçada de um belo príncipe, que lhe convidava para bailar e gargalhava dissipando aos seus olhos como uma ilusão enredada na cortina de uma nevoa de fumaça esbranquiçada. Enquanto a princesa descia os degraus da escada o seu coração batia mais forte e acelerado. Mas, desistir, não foi um pensamento que naquele momento pudesse ter sombreado os seus pensamentos para modificar a sua determinação de guerreira. Ela jamais desistiu dos seus propósitos e objetivos. Determinação sempre foi o seu lama! No momento em que a princesa tocou com a ponta dos seus delicados dedos dos pés a relva ainda úmida pela chuva fina que caíra momentos antes, ela teve a sensação de milhões de dedos a lhe fazerem cócegas e sorriu - um risinho tímido e feliz. Mas era só a ponta das folhas eriçadas pelo orvalho a lhe dar um pouquinho de afago e nada mais empolgante que isso. O pior ainda estava por vir, e ela ingenuamente nem se dava conta disso. A princípio tudo parecia estar fluindo conforme os seus planos. Ao pé da torre, escondido entre os arbustos para não chamar a atenção do vilarejo, o seu fiel e inestimável amigo de muitos anos a esperava. Era um exemplar de uma espécie rara dos dragões voadores; e estes, quando tornam-se amigos são confiáveis e leais para toda a vida. Ah, você quer saber como o dragão ficou sabendo que a princesa ia entrar em batalha? Bem, todos os dias um beija-flor a visitava em sua torre, ela o recebia sorridente e lhe oferecia néctar e mel em rosas brancas. Em agradecimento ele pousava na grade da sua janela e cantava horas e horas para alegra-la. Então, numa certa manhã quando o beija-flor a visitou, depois de alimentá-lo, ela gentilmente pediu-lhe para avisar ao dragão que viesse para socorrê-la. Como o dragão era um gentil cavalheiro, ele não iria deixar uma princesa em apuros, não é mesmo? E tão logo foi avisado do que se passava, o dragão disse ao beija-flor que comunicasse a princesa o dia e a hora em que estaria a sua espera ao pé da torre. E assim foi feito. Na madrugada do dia e hora marcados, o dragão abandonou a sua caverna e alçou voo rumo ao vilarejo onde ficava o castelo da princesa. Quando chegou ao seu destino o sol ainda não havia raiado e todo o povoado ainda dormia. Para não chamar a atenção, ele pousou silenciosamente e se abrigou por entre as árvores a espera da hora combinada para o seu encontro com a princesa, a quem, durante toda a sua vida, procurou servir como um servo fiel. A princesa ao vê-lo sair do meio dos arbustos, apesar da aparência um pouco assustadora, própria dos dragões, ela sorriu aliviada e correu em sua direção e o abraçou como fazem os grandes amigos. Eu diria que a princesa estava um pouco eufórica naquele momento! Percebendo o estado emocional de sua majestade, o dragão dobrou os joelhos e se curvou aos seus pés. Ela lhe fez um carinho na testa, o beijão na face, sorriu o mais belo sorriso de princesa e ordenou que ele se pusesse de pé. Quando esse reencontro se deu o sol já estava quase se pondo, mas resolveram esperar um pouco mais até o começo da noite, para saírem sem despertar a curiosidade e a atenção dos moradores. Quando a noite chegou e o céu já estava coberto pelas estrelas como um tape azul enfeitado de pingos de ouro, ela colocou as caixas nas costas do dragão amarrando-as de cordas para não perdê-las na viagem; e, por fim, montou pela primeira vez em um dragão, mas o fez com tamanha maestria e desenvoltura que só é própria dos grandes domadores de dragões. Ele ficou feliz e bateu suas grandes asas e voou como se estivesse levando a princesa para as estrelas, e cruzou o céu por sobre o vilarejo como um raio indo rumo ao campo de batalha, carregando em si, a mais linda de todas as princesas que um dia pisou nestas terras. Penso que se o dragão não fosse apenas um dragão, se fosse meio humano, ele se apaixonaria pela princesa, graças aos seus encantos. Mas ele era apenas um dragão e sabia disso, teria de se curvar ao seu destino de dragão e conformar com a sua sorte. então, o dragão concentrado em sua tarefa voava por entre as nuvens, bem alto, para manter-se discreto aos olhos dos homens, para que ninguém soubesse a preciosidade e significância da pessoa que ele fora o escolhido para transportar. A primeira parte da viagem pode se dizer que transcorreu bem, embora tenha ocorrido alguns contra tempos, muitos raios, trovões, nuvens pesadas, chuva torrencial, muitos dragões voando em mesma direção e outros em direção contrária, fazendo com que o ar ficasse um pouco rarefeito e o voo muito mais lento. E, embora o dragão no qual viajava a princesa fosse já experiente, turbulências existiram e incomodaram um pouco o sossego da viajante; mas, no final, o primeiro percurso foi cumprido sem maiores percalços. Outros dragões, também tripulados e que estavam de viagem não tiveram a mesma sorte. Talvez por ser menos experientes ou pela pressa desmedida, tentaram arriscar por pequenos atalhos para encurtar a distância e acabaram se chocando uns contra os outros, em rochas, ou foram atingidos por algum raio e caíram feridos, não conseguindo cumprir o seu destino de viagem. Por sorte, com o dragão em que viajava a princesa nada de pior aconteceu. Após várias horas de voo ela finalmente foi entregue ao seu primeiro destino, um castelo amigo onde ela pernoitaria e descansaria por dois dias, para só depois prosseguir viagem. Ao desembarca-la junto ao castelo onde ela descansaria por alguns dias antes de seguir viagem, o dragão teve a sua voz embargada e, de longe, eu juro que pude sentir umas gotinhas de lagrimas escorrendo de seus olhos. Mas isso seria impossível, dragão não chora! Dizem até que são muito insensíveis e antissentimentalistas. Mas não sei, não entendo muito de dragões. Sei apenas que ele ergueu voo e saiu sem olhar para trás rumo a sua caverna para se hibernar e cumprir a sua sorte. A princesa depois de descansar e recompor as suas energias, deveria partir para cumprir a segunda e derradeira etapa de sua viagem, e, finalmente, chegar ao campo de batalha que silenciosamente a esperava. Mas o dragão que a conduzira ao seu destino de luta seria outro. Ela não o conhecia muito bem, mas como a primeira viagem foi bem sucedia a princesa estava confiante e obstinada do seu propósito. Quando o segundo dragão chegou ela já o esperava com todas as suas malas e armas. E prudente, não se descuidou de se. Como em sua primeira etapa da viagem, ela amarrou as malas nas costas do dragão, e se manteve atenta para não ser surpreendia durante o voo. Se o monstro surgisse inesperadamente, ela estava preparada, pois viajou vestida de sua armadura, escudo em punho e flechas de prata a tiracolo. Tendo passado alguns dias da viagem, o dragão já se encontrava em sono de hibernação em sua caverna, e numa certa manhã, o beija-flor o visitou para contar-lhe que naquela manhã, a princesa finalmente estrou em batalha. Mas o Beija-flor não soube dizer em detalhes tudo o que acontecia, pois ele só estava dizendo aquilo que disseram a ele - e sabemos como as coisas são distorcidas quando contadas por mais de um, não é mesmo?O dragão, para ser gentil, ouviu atentamente a fala do beija-flor; depois se despediram e ele fechou os olhos desejando sorte a sua linda princesa, e como nada podia fazer para ajudá-la, voltou a dormir. As últimas notícias que chegaram para o dragão é que a princesa encontrava-se em campo de batalha, desfiando fortes e contundentes golpes com o seu escudo tentando aniquilar a fera; mas ele sempre arredio se refugia, que vez por outra ela tinha a oportunidade de lançar uma de suas flechas de prata e estas seriam fatais ao monstro caso o acertasse. Mas sempre que essa oportunidade surge aos seus olhos, não era de fato a fera que estava diante de si, e sim uma ilusão provocada por ele e que se dissipa como uma fumaça de cigarro lançada ao vento. Não se sabe ao certo quando a princesa irá retornar para o seu castelo, pois quando ela está empenhada em um objetivo ela vai até o fim. Na noite passada, o dragão sonhou que ela estava vencendo e que aluta estaria próxima do seu fim, e caso a vitória fosse confirmada, a aprincesa estaria retornando coroada com os louros por seu feito. Mas foi apenas um sonho, e não se pode dar fé aos sonhos de dragões. Ademais, todos nós sabemos o quanto é difícil vencer o monstro da solidão, não é mesmo? Mas ele continua torcendo por ela, até que...
19/01/2015
Marinho Oliveira