Chega-se a uma fase da vida em que se é ridículo experienciar novos e outros sentimentos, mas também é ridículo se curvar aos dogmas do puritanismo pudico e não os experienciá-los, visto que a vida se constrói daquilo que vivemos e também daquilo que deixamos de viver durante os anos dessa nossa mesquinha e medonha existência. Como pode alguém dizer não estar pronto para viver novos e quaisquer sentimentos, amores, paixões, desilusões, e até mesmo o luto que cobre o fim de algumas esperanças, se outros tantos sentimentos foram vividos antes mesmo de aprontarmo-nos para vivê-los? Será que "o viver" ao invés de descomplicar complica-se ainda mais a cada instante e a cada dia o que se vive ou possa ainda ser vivido? Ou será que são os homens que estão se tornando cada vez mais rudes, juízes carrascos cruéis consigo e com o outro? Se nos cabe responder a tais perguntas numa perspectiva de compreensão que seja mais ou menos lógica, calçada em nossa filogenia, história de vida, e nos impositivos da cultura, melhor então fechar os olhos e lançarmo-nos nas avenidas com os olhos vendados entre os automóveis desgovernados, a ter de enfrentar a fúria humana dos rótulos de valor espumantes da saliva daqueles que cuidam das nossas vidas mas não pagam as nossas dívidas. Por isso costumo dizer que há menos risco estar na pista com automóveis desgovernados a estar em companhia de certos “amigos”.
Marinho Oliveira
30/06/2015