quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PEDIDO IMPOSSÍVEL





Conta à lenda, que certa vez um jovem e rico Judeu montado em seu dromedário e sob um sol escaldante seguia pelas areias do deserto rumo a uma prospera cidade vizinha. E quando lá chegasse, pretendia, a um rico comerciante daquela cidade pedir-lhe em casamento a mão de sua única e linda filha, com quem pretendia formar uma bela família e ter com ela muitos filhos. E eis que entre um urro e outro jogado ao ar pelos pulmões fortes do destemido e resoluto camelo, que no seu trotar removia as areias por debaixo de suas patas soltando-as ao vento e dando a ele a possibilidade de pulverizá-las por toda a planície ondulada formando alí grandes e vastos tabuleiros. Tabuleiros estes que eram capazes de levar à morte qualquer desavisado que se aventurasse por eles sem o devido conhecimento. Entre essa poeira fina advinda da areia solta ao vento, surge um objeto que de tão brilhante aos olhos do sol seria o objeto capaz de despertar a curiosidade de qualquer nobre que o visse. E não passou despercebido aos olhos daquele jovem e destemido viajante senhor. Sem nada temer aquele navegante das areias puxou da bainha a sua afiada espada e embicou de arma em punha a sua condução em direção do reluzente e desconhecido apetrecho. Cuidadosamente e cautelosamente aproximou-se do mistério, com a ponta de sua espada descobriu da areia a peça avistada - pois sua maior parte ainda encontrava-se submersa naquele mar de finos grãos. Vendo ser coisa inofensiva aos errantes, desceu da montaria e percebeu tratar-se de uma pequena lâmpada. Curioso e cheio de boas intenções pensou logo tratar-se de uma peça perdida por algum outro conterrâneo que antes fizera o mesmo caminho agora por ele percorrido. E certamente, quando chegasse à cidade, muito provavelmente teria a oportunidade de encontrá-lo e devolvê-la ao seu legitimo dono. Assim, recolheu das areias a lâmpada e a tomou em suas mãos cuidadoso. Zeloso e observador como sempre foi durante toda a sua vida, percebeu que a peça encontrava-se com algumas e pequenas manchas escuras, muito provavelmente causadas pelos efeitos do sereno da noite. Embora não fosse seu o objeto, a sua consciência lhe dizia que as manchas precisavam ser removidas para não causar danos à materia. E assim o procedeu. Pegou do bolso o seu lenço branco já um pouco umedecido pelo suor de seu rosto e o passou por sobre as manchas exercendo certa pressão e força. Era necessária a força para a devida remoção daqueles pontos que maculavam a preciosidade. Fez-se o movimento por uma vez, assoprou o pó, examinou o resultado alcançado. Era bom! Mas podia ficar melhor. Assim pensou ele. E repetiu por mais uma, duas vezes, que totalizaram três vezes o exercício executado. Tamanha foi a sua surpresa que aquele jovem e destemido senhor quase teve do coração um ataque fulminante. Quando ia assoprá-la pela terceira vez para ver o resultado do seu trabalho um forte estrondo aconteceu no interior da lâmpada que a fez saltar-lhe das mãos. Uma fumaça azulada saia do seu gargalho e girava no ar como um grande redemoinho. Ele mantinha a espada nas mãos e em posição de guarda - era um guerreiro e bravo lutador o jovem andante. O seu dromedário estava ajoelhado e assim continuava cabisbaixo como se também fosse o acontecimento alvo para o assombro da sua imaginação. Aquela fumaça azulada aos poucos diminuía e tambem diminuiam a velocidade dos seus giros e ia assumindo aspecto e forma de vida humana, transformando-se as cores em um forte homem de belo turbante arrodeado sobre a cabeça, pulseiras e colares de ouro e diamantes que enfeitavam-lhe o corpo; nas orelhas longos e maravilhosos brincos também em ouro e diamantes reluzindos pelo sol - que de tanto brilho quase ofuscava os olhos do observador. Por fim, postou-se frente ao jovem judeu, curvou-se cerimoniosamente como se estivesse frente a um rei e apresentou-se dizento: - Meu jovem e amo senhor, sou o gênio de um só desejo; a séculos fui aprisionado nesta lâmpada por um terrível mal feitor quando recusei atender-lhe o pedido para destruir o mundo; hoje fui liberto da prisão por alguém digno de ter um desejo atendido por mim; peça, que o seu desejo será uma ordem. O jovem errante, homem puro de alma e coração, desprovido de ambições toscas e desmedidas, buscou na consciência o que seria melhor, não para si, mas para o bem de todos os seres que habitavam aquelas terras. Pensou ele em muitas coisas que julgava ser importantes e, ao final acudiu-lhe a memória as barbáries produzidas pela falta de entendimento entre os homens daquele continente. E sem vacilar, sacou do alforje um canudo de alumínio e de dentro dele sacou um mapa mundi e disse: - Veja esse mapa meu bom gênio, está vendo esta região aqui? Pois bem, se tenho direito a um só pedido eu quero a paz no Oriente Médio e que todos nós possamos viver de hoje em diante, para sempre, em paz e sem as destruções das gerras que assolam essa nossa sofriga gente. O gênio olhou bem para o mapa, deu algumas voltas no ar, pensou em se encerrar na lâmpada novamente, mas resoluto e impassivo mudou de idéia e disse ao seu novo e temporário amo: - Meu amo, cai na real, o seu pedido é impossível de ser alcançado; esses paises guerreiam há mais de cinco mil anos, essas pessoas se alimentam do ódio e do sangue alheio; como quer o meu amo que eu em um estalar de dedos mude tudo isso? Impossível! Eu sou bom é verdade, mas não o suficiente para tanto; faça outro pedido ou desapareço para sempre! Aquele judeu de tão nobre coração entendeu a lógica da argumentação do gênio e concluiu que realmente aquele era um pedido impossível de ser atendido e, agora, cuidaria para que o novo pedido autorizado fosse menos complicado e pudesse ser, enfim, atendido. Voltou-se então ao gênio dizendo: - Considerando que o primeiro pedido não pôde ser atendido, farei o segundo como se o primeiro fosse; Gênio, até hoje não me casei por não encontrar a mulher ideal. Estou indo em busca da minha futura esposa e quero que ela seja uma mulher gostosa, bonita, jovem, carinhosa, que tenha senso de humor, que goste muito de sexo, não queixe de dores de cabeça, saiba cozinhar, limpar a casa, que não seja ciumenta, seja fiel, goste de futebol, aprecie uma cervejinha e não seja vidrada em cartões de créditos e infindáveis compras; esse é o meu pedido. Ao ouvir atentamente a tal solicitação o gênio rodopiava no ar como se um furação ou tufão a revirar as areais daquele deserto; pensou em desaparecer, em enterrar-se na areia de cabeça para baixo até atingir o cerne da terra e lá se espatifar; pensou em deixar de ser gênio e blasfemou contra a sua sorte. Mas ao final, sabendo de sua irrevogável condição curvou-se à sua sina de Gênio da Lâmpada e disse: Meu amo, deixa eu ver novamente essa porra desse mapa; porque o senhor só sabe fazer pedidos impossíveis.


Fim

Marinho Oliveira

06/06/2001

VELHINHA FILHA DA PUTA!






Era uma manhã de sábado quando o Senhor Aloísio vestiu-se de sua bermuda azul, calçou tênis importado e camiseta de grife; fez funcionar o motor do seu veiculo e com imponência dirigiu-se a um importante supermercado desta cidade para ali comprar alguns poucos produtos, pois notara estar em falta na sua geladeira. Lá chegando cuidou ele de estacionar o seu veículo onde não houvesse outros carros parados, era um dos cuidados que ele sempre tivera, pois tinha medo que algum motorista não tão habilidoso quanto julgava que o fosse, viesse a esbarrar e amassar o seu possante.Tomados os cuidados de praxe, o Senhor Aloísio afastou se do veículo após observar, cuidadosamente, se ele estava bem trancado com todas as portas inclusive o porta-malas. Certificado disso empenhou-se de um carrinho e adentrou ao supermercado em busca da sua satisfação - andar pelos corredores empurrando um carrinho, observar as pessoas que por ali circulam, e comprar mesmo quase nada. O Senhor Aloísio, enquanto percorria os corredores entre uma gôndola e outra observou que sempre estava a lhe seguir uma velhinha muito simpática, de olhos azuis, pele alva e bem cuidada, cabelos ondulados e de tamanhos médios e tinhas a cor dos algodões a luz do sol. E sempre que os seus olhos cruzavam comos dela, ela deixava um belo sorriso escapar dos seus lábios e irem ao seu encontro. Ele parava para pegar algum produto e ela a alguns passos repetia a operação. Aquilo de certa forma o incomodava. Mas fazer o que? Era uma graça de velhinha! E ele para ser gentil, como um cavalheiro também retribuía o sorriso. Afinal, não há mal algum em sorrir para uma simpática e carismática vovó. Certo é que o Senhor Aloísio, como o de costume, comprou quase nada. Estava mais a passear pelos corredores naquela bela manhã de sábado, como dizem por aí, “a matar o tempo” observando as pessoas. Umas ele as cumprimentavam e outras não, por não serem de sua amizade pessoal - eram conhecidos dali mesmo, de encontros casuais quando de outras compras. O fato é, que a vovó despertou nele muitíssima curiosidade. Gostaria ele de saber quem era ela, mas mantinha a distância e não fez pergunta alguama a ela, não queria ser indiscreto. Porem, não podia deixar de atentar para o carrinho empurrado pela vovó, ao contrário do seu que estava quase vazio - uns pingados de compra - o dela estava simplesmente abarrotado de produtos variados, diversos! Era uma fartura de dar gosto ver; era feira para mais de um mês em casa cheia. Satisfeito da sua extravagância com o dinheiro, chegou à derradeira hora do Senhor Aloísio enfrentar com galhardia a bendita fila do caixa. A velinha se apressou com o seu carrinho e tomou posição na frente dele e sempre com um sorriso blandicioso de vovó dócil e amável, a empurrar um carrinho abarrotado de compras como se ali estivesse uma linda criança. Foi nesse momento, que ela contemplou nos olhos do Senhor Aloísio, com voz tremula, um meio sorriso nos lábios disse-lhe: 

-Espero não tê-lo incomodado; mas é que você se parece muito com meu falecido filho... (o semblante da vovó entristeceu por um instante e ele viu brotar nos olhos daquela simpática e amável velhinha uma gota de lágrimas)

- Não! É... Fique tranqüila, a senhora não incomodou de jeito nenhum; está tudo bem. Tudo bem mesmo! (tudo isso ele respondeu com um nó na garganta, ele se parecia com um filho que daquela senhora  fora pelas mãos do destino levdo)

- Posso lhe pedir algo incomum? (disse-lhe a simpática velhinha) 

- Sim. Se eu puder lhe ajudar será um imensurável prazer. (disse o Aloísio)

- Você pode se despedir de mim dizendo: - Adeus, mamãe, nos vemos depois? É que assim dizia meu filho querido. Ficarei muito feliz ao ouvir esta frase novamente! (a voz da vovó estava triste)

- Claro, senhora! Não há nenhum problema. Se isso a deixará feliz, considere-o feito. (disse ele para alegria da velhinha) 

Enquanto o Sernhor Aloísio se distraiu a olhar uma jovem senhora que acabava de entrar no supermercado e lhe desferiu um olhar de caça, a velhinha passou então pela caixa registradora, se voltou sorrindo e agitando suas mãos e disse-lhe: 

- ADEUS filho. (disse ela)

- ADEUS mamãe, nos vemos depois. (Cheio de amor e ternura, ele respondeu a ela efusivamente) 

- Sim, filho. Nos vemos depois querido. (disse ela e foi se embora)

Contente e satisfeito por ter propiciado um o pouco de alegria ao coração sofrido de um doce velhinha, chegou a vez do Senhor Aloísio ir ao caixa registrador que conferiu as suas minguadas compras com leitor de códigos, sendo o resultado acompanhado pela voz rouca e meio áspera da moça do caixa que entregou-lhe o valor da conta impresso em fita amarela dizendo: - R$ 554,29, (são quinhentos e cinqüenta e quatro reais e vinte e nove centavos.(disse a moça) 

- Tá louca? Dois sabonetes, duas pilhas, um papel higiênico e um creme dental? (questionou o Senhor Aloísio cheio de irritabilidade)

- Mais e as compras da sua mãe? Ela disse que você as pagaria!!!!! (retrucou a moça do caixa registrador) 

- VELHA FILHA DA PUTA!  Foi à única exclamação proferida por ele à moça do caixa registrador que nada entendeu e limitou-se ao silêncio e a pensar, se aquelas seriam as palavras certas para um filho dignar à própria mãe - assim pensou ela. Ele retirou da carteira o seu cartão de cretidos, dividiu a compra em três vezes e jurou consigo mesmo que nunca mais em sua vida, falaria ou sorria para uma velhinha dentro de um estabelecimento comercial, nem na rua ou em velório.


Marinho Oliveira
12/05/2004

UM DIA DE SEXTA-FEIRA


                              



...era um dia sexta-feira, se lembro bem. Não era um daqueles dias em que se pode dizer: “que maravilha de dia”! Carece que chovia. Uma chuva fininha que lentamente molhava o chão tornando-o escorregadio que mal se podia ter de pé. Os cabelos de quem nela se aventuravam ficavam como as folhas orvalhadas nas manhãs de sereno forte. O azul do céu permanecia escondido encoberto pelas grossas nuvens escuras que num bailado astral brincavam com os nossos olhos, trazendo a eles certo ar de mistério neste céu a voar sobre as nossas cabeças. Poderia se dizer mesmo que, um ar funesto dominava aquele momento! Não se assuste amigo, não se pode dizer que funesto para um dia como aquele seja uma palavra um tanto quanto sombria. Pois, revirada as lembranças guardadas na memória de Jomacoli, refazendo todos os acontecimentos daquela sexta-feira, até que caberia bem aplicá-la ao contexto que se apresentou a ele. Pois revirando o baú de suas memórias sem precisa ir ao fundo, por se tratar de fatos relacionados com um passado recente, fica ao seu juízo o possível exagero quanto à parte funesta. Vejamos... havia já alguns dias que por capricho dos deuses Jomacoli  encontrava-se privado de ver a sua amada e ouvir  a sua doce voz, que para ele era como o canto da brisa nas manhãs ensolaradas acariciando os seus ouvidos. Jomacoli  sentia se frustrado, uma sensação de impotência quanto a sua capacidade em convencê-la, no sentido de deixar alguns dos seus afazeres para dedicar um pouquinho do seu tempo a ele ou a eles. Essa sensação fazia os seus sentimentos em borbulhões e toda vez que pensava nela - o que acontecia quase que o tempo todo - sentia-se faltar por debaixo dos pés o chão sólido e firme a se pisar. Incontido em seus devaneios acabou de almoçar e tomou em suas mãos um aparelho telefônico  celular, respirou fundo como se fosse um adolescente ou talvez como tenha respirado pela primeira vez quando chegou a este mundo. Apertou então número a número do teclado, aguardou o som de chamada que logo foi completado. Refez aquela respiração profunda e lenta e se segurou alguns segundos e depois, do outro lado da linha veio aos seus ouvidos a suave e doce voz, aquela em que ele esperava ouvir, que o atendeu dizendo: - Oi meu bem! Era ela, a sua amada! Iniciou-se então uma conversa amistosa e amiga. Eram palavras e frases curtas, quase que tão frias como a chuva que insistia em cair do céu naquele dia. Jomacoli ao  perceber a falta de entusiasmo que a cercava e a frieza nas suas palavras, tinha vontade de desligar o aparelho  e dar por encerrada aquela conversa, pois encontrava-se engasgado, constrangido e quase que chorando. Durante aquela conversa de frases curtas passavam milhões de coisas em sua mente, sentia-se como se fosse um pequeno inseto sentado em uma poltrona enquanto falava ao telefone tentando convencer a uma deusa que era zeus. Enquanto isso ela se justificava dizendo dos seus compromissos, os planos de aulas a ser preparados, os livros a serem lidos na a sua preparação para enfrentar novos concursos, a tese que defendia e etc... Era uma argumentação lógica, plausível e que se sustentavam em si só pela argumentação apresentada. Jomacoli  já sem capacidade argumentativa e sem perspectivas em demovê-la de encerrar-se a si mesma, não se continha de desânimo em sua pequenez e sentia-se como a um náufrago afogando em suas próprias palavras ou na falta delas. Quando de repente, como se num estralar de dedos, lembrou que naquele dia ela poderia chegar ao seu locar de trabalho um pouco mais tarde, como acontecia nas sextas-feiras. Ele então não perdeu tempo, como AS da espada sacou instintivamente de novas forças e se ofereceu para acompanhá-la. Disse que aguardaria até o seu horário de final do expediente com muito prazer e sem causar constrangimentos - coisas de homem apaixonado. Talvez por tanta insistência de sua parte ela acabou por aceitar a sua insignificante companhia. Cheio de felicidade, deixou o trabalho um pouco mais cedo e até deu um banho de gato no carro, daqueles em que se lava apenas do lado de fora. Tomou um banho caprichado, passou água de colônia, dessas baratas que se compra em supermercados - mas que tem um bom cheiro - haja vista não poder usar perfumes por problemas de pele. No horário marcado, com uma pontualidade Britânica, Jomacoli  apareceu sorridente e feliz. Ao perceber a sua chegada ela empenhou-se de seus pertences e declinou a descer os degraus da escada. Ao ouvir os seus passos num toc-toc aos degraus seu coração acelerou como se um carro de fórmula um. Respirou fundo e percebeu suas mãos tocando no trinco do portão que se abriu lentamente como se ela estivesse certificando dos acontecimentos naquele local antes de se expor. Por fim, ela se mostrou por inteiro aos seus olhos. Estava simplesmente, linda! Vestida com roupas simples, calça jeans, azul; camisa, branca; uma blusa de lã em tom acinzentado e um tênis claro. Ela sempre fica bem em vestis simples ou em quaisquer outra - deve ser por sua beleza natural e a silhueta do seu corpo sempre em forma. Trazia nos ombros uma bela bolsa café; nas mãos e apoiados nos braços muitos livros - talvez os livros fossem, silenciosamente, objetos de sustentação dos seus argumentos ao telefone. E se essa foi a sua intenção, talvez inconsciente, ledo engano. Não é preciso provar absolutamente nada a um homem apaixonado. Geralmente, eles acham lindo, justo, acredita em tudo o que elas fazem e dizem. Com Jomacoli  não era diferente. Talvez por não estar muito seguro de si e até mesmo um pouco embaralhado com os seus pensamentos e a visão que tivera dela, faltou-lhe o cavalheirismo e a boa educação que sempre tivera, não desceu para abrir a porta do automóvel para que sua amada entrasse. Limitou-se há tão somente esticar um pouco para a direita e com a ponta dos dedos puxou a maçaneta, o que fez com que abrisse a porta. Ela entrou rápido, carregando toda aquela tralha, como se não quisesse ser vista por mais ninguém naquela hora. O engraçado é que atitudes semelhantes já aconteceram antes também. Embora, em situação diferente. E ele nunca entendeu o por que de tal comportamento. Ela é maior, dona do seu nariz, capaz, inteligente e não tem que dar satisfação a ninguém do que faz ou deixa de fazer. Mas vai entender as mulheres, até mesmo as cultas e sábias. Mesmo com toda aquela parafernália que trazia consigo, elegantemente se colocou no interior do carro acomodando o seu delicado corpo no banco dianteiro e prendendo-o com o cinto de segurança. Docemente sorriu; um sorriso doce, inocente e breve. Em seguida, com voz meio presa e quase inaudível disse: - então, vamos meu bem! Com ares de bobo-alegre e extasiado diante dela Jomacoli  ligou o carro, engrenou uma primeira e lá se foram os dois; ela trabalhar e ele de cão de guarda. “Fico pensando comigo mesmo, o que pode fazer o amor a um homem apaixonado - vira criança.” Ele, então, contemplou com olhos lânguidos novamente o céu, pois queria ver se as nuvens haviam deixado em paz o azul e as estrelas que teimavam insistentemente se manterem escondidos nas  suas sombras. Àquela hora já era noite e todo um dia, a contar do telefonema, já havia se passado.  Mas o céu não lhe sorriu, continuava escuro como breu. Não se via nehuma pequena mancha azulada nem tão pouco um pontinho luminoso ao qual pudesse chamar de estrela. Jomacoli  em seu silêncio disfarçado, engolindo em seco a saliva dos seus pensamentos, entendia que São Pedro, provavelmente, estava de mau humor e que talvez tivesse se aborrecido com alguma alma incauta - que dada a sua ingenuidade - poderia ao aportar-se nos umbrais da entrada do paraíso tecido algum comentário desonroso aos ouvidos de outras almas desocupadas a cerca do comportamento de Pedro. E isso pudesse ter enredado em uma fofoca e chegado aos ouvidos do todo poderoso, que por sua vez o reprimiu severamente. Motivo pelo qual, dado o aborrecimento de Santo o céu encontrava-se em tal estado. “È. Só mesmo um louco de amor para tais devaneios. Chega ser quase que insanidade.” Certo é, que ele balançou a cabeça como quem o faz para expulsar os maus pensamentos e seguiram em frente, rumo ao destino de sua amada para o seu labor diário. Jomacoli  a olhou de canto do olho, já que precisava ficar com olhos fixos na estrada que se encontrava molhada e escorregadia. Ela percebeu e ambos sorriram um sorriso amarelo e meio sem graça. Algumas palavras foram trocadas durante o percurso. Falaram de coisas sem importância e corriqueiras do diaa dia; falaram também um pouco de suas vidas, dos relacionamentos pessoais passados e outros assuntos de igual importância - porém mal resolvidos.  Fato é que quando menos se esperou chegaram ao destino - o local de trabalho - onde mais uma vez ela se esconderia dos seus olhos por mais algumas horas.  Ele calmamente estacionou o carro debaixo de uma árvore e  se dirigiu depois a uma cantina que ficava no interior do estabelecimento onde fez um pequeno lanche. Na realidade não estava com fome, estava nervoso, isso sim! Depois apossou de um livro que estava em sua bolsa e foi degustar uma boa leitura sobre o cinema brasileiro. Precisava arrumar o que fazer para esperá-la. Coisa que Jomacoli  fazia sem nenhum sacrifício - um servo. Mas venhamos e convenhamos, esperar por mais de três horas em um só lugar e sem nada fazer não é fácil. Até mesmo para um homem apaixonado. O engraçado é que a leitura o prendeu tanto que em um certo momento deparou com algumas pessoas já saindo do prédio e resolveu consultar as horas. Pois não é que para o seu espanto já haviam passado às três horas e quarenta minutos. Jomacoli  ajeitou novamente as roupas no corpo, guardou na bolsa o livro e quando olhou novamente para a escada de saída do edifício e lá estava ela no alto dos degraus, parecia estar a contemplar um Anjo. Desta vez sim, ele desceu do carro e gentilmente abriu a porta para que ela entrasse. Fez o que se espera que faça um homem educado e cortês. Ela rapidamente entrou no carro, a chuva não havia dado trégua, continuava em sua pirraça de chuva manhosa. Todo o ritual fora feito novamente: o de ligar o carro, desta vez acender os faróis, engrenar primeira e sair lentamente com destino ao ponto de partida – casa de sua amada. Jomacoli  dirigia vagarosamente, não tinha nenhuma pressa em chagar. Queria ficar mais tempo possível ao seu lado, pois sabia que outra oportunidade havia de lhe custar muitos telefones e dias a fins. Mas como toda distância é marcada por dois pontos, não importando se reta ou curva, mesmo devagar, para sua tristeza, chegaram ao local de onde antes saíram. Jomacoli  parou junto ao portão de acesso à sua casa e olhando-a nos olhos o seu corpo todo pedia para que não a deixasse sair. Mas não fez absolutamente nada! Apenas a olhava com admiração e desejos.  Ela então sorriu com o mesmo ar de sempre, doce, sereno, calmo e leve – com a brandura dos anjos, soltou o cinto de segurança, ergueu-se para o seu lado e lhe deu um terno abraço. Agradeceu pela companhia e lhe desejou boa noite. Ele teve vontade de apertá-la em seus braços e não deixá-la sair; o seu corpo pedia silenciosamente que ele a beijasse com sofreguidão. Mas Jomacoli  nada fez! Limitou-se a descer do carro ajudando-a a abraçar toda aquela tralha – bolsa, livros e etc... E antes do último boa noite perguntou quando voltaria a vê-la. Eu te ligo – ela respondeu. Retirou da algibeira um molho de chaves, escolheu uma e a enfiou na fechadura; a porta se abriu e ela entrou para o seu merecido descanso na clausura do seu lar. Ele entrou no seu automóvel e rumou para sua casa cheio de esperanças, sonhando com a felicidade, acreditando um dia poder se enredar na teia do amor e nos braços de sua amada. Acordou sorridente no dia seguinte, mas ela não ligou. Foi assim no segundo, no terceiro e nos outros dias futuros. O seu sorriso de homem apaixonado transformou-se num ar triste como o ar funesto daquele fatídico dia em que Jomacoli a viu pela última vez. Ele incansavelmente buscava e rebuscava em sua memória o que poderia ter acontecido naquele dia para afugentá-la tanto; o que teria feito de tão grave para merecer tamanho desprezo? Mas não encontrava respostas às suas perguntas. Então, Jomacoli curvou-se à sua insignificância e para acalmar os seus ais, todos os dias antes de dormir olha a foto de sua amada registra no celular, mentalmente lhe deseja uma boa noite e mente para si mesmo dizendo que ela vai ligar. E na esperança, deixa sempre o telefone celular embaixo do travesseiro. Mas, ela nunca mais ligou! Coisas de sexta-feira, eu acho.

Fim
Marinho Oliveira
04/03/2010

TERAPIA




Já haviam passados mais de vinte anos em que Ana e Paulo estavam casados. Embora tivessem uma aparência ainda jovem - graças aos cremes e aos cuidados de ambos para com a pele, pois sempre foram eles bastante vaidosos - já percorriam a faixa entre os quarenta e cinqüenta anos de idade. Desde os velhos tempos de namoro naquela cidadezinha do interior de Minas Gerais onde nasceram, sempre foram muitíssimos apaixonados e cuidadosos um para com o outro. Diziam aqueles que os conheciam que pareciam eles dois pombinhos; que foram feitos um para o outro e que formavam um belo casal - perfeito e bonito. Naquela época os namoros eram muito comedidos porque eram vigiados; principalmente em uma cidade pequena onde todo mundo conhece todo mundo, sabe quem é namorado, namorada, mulher, marido, filho, filha, sobrinho, parentesco e em alguns casos até quem é o padrinho de quem. Privacidade: zero! O fato é que os dois pombinhos sentindo a necessidade de atender aos clamores do corpo pois os hormônios estavam a fervilhar, não houve outra forma a não ser a de contrair o sagrado matrimônio com a bendita igreja enfeitada, padrinhos para mais de duzia, dama de honra, festa de casamento, arroz ao sair da igreja, latas velhas amarradas no pára-choque do seu velho carro e etc. Uma vez atendida a voz da sociedade pudica que na maioria das vezes é quem dita quem pode ir para a cama com quem - punido impiedosamente aos que margeiam os seus proclames - os dois já casados viviam felizes, sendo amigos, companheiros, homem e mulher um para o outro já que a natureza lhes poupou a graça de terem filhos. Mas por melhor que seja um relacionamento o tempo é impiedoso, ele vai preguiçosamente registrando as suas marcar nas células do nosso corpo e sem que as percebamos elas vão ficando a cada dia mais profundas e se mostrando a todos. Assim também aconteceu com aqueles dois, estando agora mais para gaviões que pombinhos. Já se distanciavam um do outro sem sentirem tanta falta ou quase nenhuma. Saiam ainda juntos, iam à missa aos domingos, passeavam nas casas dos amigos mais próximos e também dos parentes, às vezes sentavam se juntos no banco da praça matriz nos fins de tarde, mas o por do sol não tinha mais o brilho e a beleza de antes. Já não havia mais todo aquele carinho e cuidado de um para com o outro, fato também compreensível, não eram mais namorados e há muito tempo eram marido e mulher. À noite, quando iam dormir, não havia aquele interesse e aquela curiosidade em ver o outro se despir. Tornara depois de muitos anos um acontecimento comum e banal aos seus olhos. Quando iam fazer sexo, faltava aquele frenesi, o frio no estômago, na espinha e os gemidos e sussurros eram quase surdos; os orgasmos não eram mais uma revolução, uma convulsão, estavam mais para um tremelique e nada além disso. A mulher  horas antes ou até mesmo durante as relações sexuais, quase sempre se queixava ao marido de dores de cabeça. E isso muitas vezes os fizeram interromper o ato até mesmo antes de o começarem. Pensando a mulher  que a sua dor de cabeça se tratava de um problema maior ao que ela em sua auto avaliação batizara como sendo “enxaquecas”, resolveu procurar um Clínico Geral para fazer uma primeira avaliação. Após minuciosos exames de tomografias, resonâncias e radiografias, nada de anormal foi constado naquilo em que ela insistia em chamar de “chapa da cabeça”. Concluindo o médio que o problema poderia ser de ordem psicológica, pois manifestava sempre, segundo a paciente, quando iniciava os primeiros ensaios para um possível ato de amor, ele, convicto de seu diagnóstico a recomendou aos serviços de um profissional da área de psicologia. Tendo em mãos o encaminhamento acomanhado do criterioso relatório, compareceu ela ao consultório indicado apresentando-se ao novo profissional, entregando-lhe os exames feitos e “as chapas da cabeça” que nada de anormal indicavam. Nessa primeira visita e que já funcionou como consulta ela foi encaminhada a uma sala, onde em companhia de uma enfermeira e do Psicólogo fez um resumo de sua vida deste os tempos de infância. Falou das suas lembranças de criança, adolescência, da primeira paixão, do primeiro namorado, do primeiro amor, de todos os namoros e do casamento. Discorreu também relatar toda a sua vida de casada desde o sim no altar, passando pela noite de lua de mel até chegar àquele fatídico dia de sua vida no consultório de terapia. Concluido essa parte da consulta e com o diagnóstico da paciente em mãos, deu-se oinício do tratamento propriamente tido e que perdurou por uns seis meses com freqüência regular de uma vezes por semana. Ela nunca faltava, tinha interesse em se curar daquela bendita - para dizer a verdade - maldita dor de cabeça. E tamanha foi sua surpresa que ao final dos seis meses de terapia já se sentia inteiramente renovada, sem dores ou reclamações na hora de fazer amor com o seu adorado e amado marido. Ele, porem, começou a apresentar indisposição, falta de desejo e apetite sexual deixando-a um tanto quanto chateada e preocupada; e tal foi sua chateação que acabou por confessar ao marido o tratamento que fizera as escondidas, sugerindo a ele que também o fizesse; pois quem sabe se também lhe voltaria o apetite e desejo pelo sexal como aconteceu a ela? O marido arregalou os olhos, interessou-se pelo assunto e no dia seguinte, à primeira hora do dia já estava à porta do consultório a espera do médico - que o recebeu de pronto. Tal qual fora feito com a mulher, ele também foi conduzido a uma sala onde relatou toda a sua vida, desde as suas primeiras lembranças de infância até as lembranças daquela data. Assim ele o fez e o tratamento perdurou também seis meses. Numa certa noite o marido entrou correndo em casa, no meio da sala arrancou as roupas ficando completamente nú, agarrou com sofreguidão a esposa e a levou nos braços para o quarto, jogou a na cama, rasgou nos dentes as suas vestes e disse a ela: - Estou curado! Não se mova daí que eu volto logo.  Ele foi correndo ao banheiro e voltou instantes depois; pulou na cama e fez amor de maneira muito apaixonada como nunca antes havia feito. A esposa então falou: - Meu amor, foi maravilhoso! O marido disse novamente à esposa: - não saia daí que eu volto logo. Ele se levantou e foi correndo ao banheiro; voltou, fez amor novamente com a esposa, e desta vez, a segunda foi melhor que a primeira. A mulher se sentindo uma deusa na cama, sem dor de cabeça e girando em êxtase com aquela experiência extraordinária e nunca antes vivida - duas relações sexuais em tão pouco tempo e com tanta qualidade - então ela disse ao marido: - você meu amor é o melhor amante do mundo! O marido cheio de si disse à mulher pela terceira vez: - então espera aí meu amor que eu vou ali e volto logo. A mulher não se cabendo de felicidade e curiosidade se levantou e pé-anti-pé foi atrás do marido ver o que se passava. Tamanha foi a sua surpresa ao encontrar o marido diante do  espelho do banheiro dizendo: - esta não é minha mulher é a gostosa da filha do vizinho;  esta não é minha mulher é a gostosa da filha do vizinho; esta não é minha mulher é a gostosa da filha do vizinho; esta não é minha ... Ele dizia esta frase repetidas vezes  com impetuosidade, brilho nos olhos e muita paixão. No dia seguinte fez-se o sepultamento de Paulo, que segundo laudo do IML, teve morte por afundamento da caixa craniana ocasionada por queda no banheiro de sua residência durante o banho.


Marinho Oliveira
12/06/2006

MULHER EM UM SALTO SÓ




Pedrito estava a passear pelas ruas do bairro em que morava no seu velho carro. Velho mais tão bem cuidado e zelado que chegava a ser confundido como se fosse um automóvel novinho. Era um opala quatro portas, rodas de alumínio ou liga leve não sei. Mas sei que de tanto serem lavadas, esfregadas, polidas as tais rodas e encerado o carro que dava para se pentear os cabelos e até mesmo usa-lo como um grande espelho de rua. Digo espelho de rua porque o danado do Pedrito não tinha se quer garagem para guardar o seu possante, que é como ele o chamava, pois morava de aluguel em uma pensão para rapazes. Casa essa em que ele e outros dividiam vagas no quarto. Em uma ocasião em que Pedrito estava a dar voltas pelas ruas, exibindo o seu troféu como se exibisse próprio pênis, ele parou fortuitamente em uma praça junto a uma igreja, era a derradeira hora em que o padre dizia: - que vão em paz e que deus lhes acompanhe. Era o horário do termino da missa das dez. E muitas e belas moças que aos sábados aproveitavam para espichar a noite, dormiam um pouquinho mais deixando para cumprir as suas obrigações para com o bondoso Deus nesse horário - a conhecida missa das dez. Assim, além de colocar em dia o sono atrasado também se livravam dos pecados cometidos na noite anterior e ainda teriam livre toda a tarde e parte da noite do domingo para saracotear pela cidade, como o fazem elas. Pedrito estacionou o seu gigante vermelho debaixo de uma frondosa arvore, talvez para fugir do sol, preservar a pintura e o estofamento. E ficou ali, parado, observando o movimento como se um gavião à espreita da casa. De súbito, olhou pelo espelho retrovisor e percebeu que vinha vindo em direção a que ele se encontrava estacionado uma mulher, a princípio, interessante. Alguma coisa de estranho nela chamou-lhe a atenção, mas de imediato não entendeu o que era. Então, firmou os olhos no retrovisor e percebeu que ela andava em altos e baixos, como se a causa fosse uma má formação física. Ela claudicava. Ele buscou reconhece-la mas sua memória não o acudiu. Optou então pela argumentação mais simples dentro de suas convicções, de que nunca a tinha visto por aquelas redondezas, e que por certo seria uma novata no bairro. Porém, apesar de claudicar era uma mulher muito bonita, fato que ficou logo bem certo para ele. Tinha os cabelos compridos e negros, olhos amendoados e cor de mel, pele cor de jambo. E apesar do aparente problema físico - o manquitolar - ela mantinha uma postura altiva e elegante. Sua expressão era calma e os lábios apresentavam um leve vínculo insinuando um constante e singular sorriso. Talvez estivesse a sorrir por dentro do que lhe acontecera momentos antes. Ele esbugalhou os olhos contemplando-a de alto a baixo. Pedrito percebeu tratar-se então, não de uma má formação física, mas um salto a menos em um dos sapatos usados por aquele elegante mulher. Menos mal, pensou ele e sorriu consigo mesmo. A falta daquele salto era o objeto que a fazia andar em mancos num toc toc descompassado. Foi então que lhe veio à cabeça aborda-la. Não tinha nada a perder - pensou ele. A principio a sua abordagem teria o tom de uma mera curiosidade: saber o que lhe furtou aquele pedaço de sapato. E ligeiro como a um gato ele preparou o pulo certo de que não erraria o bote. Quando ela se aproximou a uma distância de mais ou menos uns cinco metros da sua nave, ele se preparou e tomou postura de ataque; passou as mãos nos cabelos, olhou no espelho e fez alguns esboçou alguns sorrisos para ter certeza de qual cara fazer na hoja do ataque. Queria certificar qual seria o seu melhor sorriso caso a abordagem desse certo. Quando ela estava a passar pelo carro, ele fingindo que não a tinha visto abriu de súbito a porta esbarrando-se nela. De susto ela deu um gritinho delicado e deixou cair ao solo à bolsa que trazia consigo em uma de suas mãos. Pedrito se fez de atrapalhado - era a sua estratégia - e de pronto empenhou-se em pedir mil desculpas como se fosse um terrível acidente, não dando prazo sequer da mulher se zangar com ele, ficando ela limitada a ficar parada, imóvel, como uma estátua de bronze à sua frente enquanto ouvia as lamentações do pobre moço. Naquele momento, apenas a porta do veículo se punha entre os dois separando-os. Vendo o desespero do infeliz e atrapalhado rapaz, que afoito baixou-se ao chão, apanhando a bolsa e o que dela havia caido para entregar à sua legítima dona, ela suspirou aliviada, sorriu e disse:
- Precisa ter mais cuidado. Não me viste aproximar para passar? (perguntou ela)
- Não. Não vi! Mil perdões, mil perdões minha... (meio engasgado fingindo confuso)... Senhori... senhor...
- Senhora. (respondeu ela)
- Mil perdões minha Senhori... é quero dizer: - Senhora. É que eu...(Se embolou de vez)
- Eu o que? (perguntou ela indagativa)
- É que eu descia tão distraído do carro que não... (respondia ele, quando foi interrompido)
- Que não me viste? (ela completou)
- É exatamente isso. A Senhora... me perdoa? (ele já recomposto)
- Tudo bem meu caro, não é caso de pedir perdão. (ela condescendente)
- Então não está zangada comigo?  (perguntou ele)
- Claro que não. Afinal nada aconteceu. A não ser mais um pequeno susto. (disse ela)
- Mais um pequeno susto? (perguntou ele)
- Exatamente. Mais um pequeno susto (disse ela)
- E qual foi o outro, posso saber? (perguntou intrigado)
- Não há mal algum em dizer. (respondeu ela com um leve sorriso)
- Só diga se não for causar desconforto. (disse ele)
- Desconforto? Desconforto nenhum meu rapaz. (afirmou ela)
- Então o que foi? Sou todo ouvido.  (perguntou ele)
- Vinha eu caminhando pela rua, distraidamente...
- Assim como eu descia a do carro, não é? (ele a interrompeu)
- Não. Acho que não. (sorriu e continuou ela) Mas como dizia, vinha eu caminhando distraidamente, e ao cruzar aquela rua alí atrás, o salto do meu sapato ficou preso à grade do bueiro. (disse e sorriu)
- Que terrível acidente, (demonstrando ele preocupação) em tempo de torcer o tornozelo ou até mesmo fratura-lo.
- Não exagere meu rapaz, não pode se chegar a tanto quebrando um salto. (disse ela)
- Pode sim! Pode sim! Esses bueiros são perigos de mais para as Senhoras e Senhoritas.
- Você acha isso mesmo? (perguntou ela com ares enigmáticos)
- Claro que acho. (convicto) A prefeitura deveria ser responsabilizada por esses acidentes.
- Acidentes? (perguntou ela)
- Sim. Acidente. (afirmou ele)
- Mas foi só um salto de sapato, quebrado. (disse ela)
- Ainda bem.
- Ainda bem, o que? (perguntou ela)
- Ainda bem que foi apenas o salto do sapato. Já pensou...
- Pensou o que? (ela o interrompeu indagando)
- No que eu disse antes?
- O que você disse antes? (perguntou ela)
- Se esse acidente desse causa a uma torção de tornozelo ou fratura de pé. A senhora já pensou nisso? Eu não quero nem imaginar um troço desses. (disse ele)
- Não entendo meu rapaz? (ela com ares de mistérios)
- Não entende o que minha Senhora?
- Primeiro você quase me bate no rosto a porta do seu automóvel... (ela é interrompida).
- Foi sem querer. Foi sem querer, eu estava distraído. Já disse.
- Sim. Eu sei. Não estou acusando você de má intenção.  (respondeu ela) Mas agora leva ao extremo a perda de um salto de sapatos que por acaso do destino ficou preso a um bueiro. (ela sorri).
- Você tem razão. É que agora eu... (engasgou-se)
- Agora... você... o que? (ela o questionou)
- É que agora, depois que tudo aconteceu, eu...eu...
- Você o que? (insistiu ela)
- Eu ficaria muito chateado se acontecesse alguma coisa ruim com a Senhorita... quero dizer... com a Senhora.
- Diz do bueiro ou da porta do seu carro quebrando o meu nariz ou esfolando o meu rosto (disse ela sorrindo)
- De tudo. Das duas coisas (respondeu prontamente ele)
- Olha! Como és cavalheiro, hem? (sorrindo amavelmente)
- Obrigado. (todo sestroso) A Senhora é que é muitíssimo amável.
- Vejo que além de atropelador, és também um galanteador!(ela sorrindo)
- Perdão Senhora, eu não quis ser inconveniente, (constrangido) eu não quero...(ele aflito)
- Não meu rapaz, você não está sendo inconveniente.
- Não estou não? Não mesmo? (insistiu ele)
- Não. Inconveniente foi o meu sapato. (ela respondeu sorrindo)
- O seu sapato? Como assim?
- Quando resolveu deixar o salto preso a uma grade de bueiro, me fazendo andar como se fosse manca, não viu? E tudo isso em plena manhã de domingo. (sorri docemente amavelmente).
- Sinceramente não. Não vi que mancava. (ele mente elegantemente a ela)
- Quer que lhe mostre como andava? (pergunta ela)
- Não. Não é necessário. (respondeu ele) Não quero esse constrangimento a uma tão bela Senhora.
- Ora, você não quer esse constrangimento a mim? (ela sorri) Não percebe que terei de caminhar ainda alguns bons quarteirõesaté chegar a minha casa? (disse ela)
- Não terás de caminhar. (respondeu ele)
- Não terei? Como não terei? A minha casa não virá a mim. Eu terei de ir a ela, não achas? (disse ela)
- A sua casa não virá até a Senhora, mas eu posso levá-la até a sua casa e o faria com muito prazer. É para recompensá-la do susto (com ares de cavalheirismo)
- Você me levar até ela, até a minha casa?
- Sim. Se não houver risco para a nossa saúde. (ele sorriu e ela entendeu)
- Risco a nossa saúde? (ela também sorriu)
- E então, posso? (perguntou ele)
- O que?
- Levá-la até a sua casa? Já me disse que ela não virá até aqui. (sorrindo levemente).
- Penso que não há risco a nossa saúde. Hum! Acho que pode. (e sorriu para ele)
- Então vamos? (ele gentilmente abriu a porta do carro para que ela entrasse)
- Vamos! (disse ela)
- Mas que maçada, hem! (disse ele)
- O que?
- Esse seu sapato, ele não tem coração.
- Ah, não! Não tem mesmo. (disse ela) É couro pregado em madeira. (riem os dois e ela completa) Mas já teve coração um dia.
- O seu sapato? Quando? (Perguntou ele)
- Quando não estava ainda colado a madeira e andava a pastar pelos verdes campos.(respondeu ela)
- Os sapatos?
- Não. Os bois. (ela olhou para ele e sorriu um sorriso largo e feliz)
...
 ... no caminho até a casa onde fora levá-la, Pedrito descobriu que se tratava de uma jovem senhora, viúva de um rico empresário falecido há alguns meses atrás vítima de um desastre de avião. E que ao morrer, ela se tornou acionista majoritária de sua empresa, e que por sinal, os negócios iam muito bem obrigado. Descobriu também que a casa onde ela morava tinha garagem suficiente para o seu lustroso opala - quase um espelho - onde ele ficaria ao abrigo das intempéries do tempo. No coração da jovem Senhora viuva Pedrito achou abrigo para os seus anseios de homem e bom vivâ; o que o fez sem arrependimento, entregar a ela as chaves do seu amor e de todo o seu seu coração. Estão juntos há mais de dois anos e em menos de dois meses já serão três – ele, a mulher que manquitolava em um salto só, e o filho que ela espera. Parecem que pretendem se casar no dia em que for batizar o bebê.


Marinho Oliveira
12/06/2009


PECADO DE MULHER





Trazido à vida pelas mãos de uma parteira, ele nasceu em um canto do mundo quase esquecido por Deus. Era uma bela criança! Sua mãe entre lágrimas de dor, ternura e amor o recebeu nos braços ainda enlameado dos viscos da gestação. E desde os primeiros instantes de sua vida já se podia, com certeza imaginar, que aquela criança receberia todos os mimos da casa paterna. Seu pai encontrava-se em viagem de negócios e quando chegou mais tarde em casa vindo do seu labor,  foi recebidopor um dos seus mais dedicados empregados, aos berros, junto da porteira da cerca que ladeava o terreiro onde moravam. Esbaforido ele gritava em altos brados como se quisesse anunciar aos quatro cantos do mundo este novo ato de eclosão: - patrão, patrão, a criança nasceu patrão; o senhor agora é pai; é um menino patrão; uma beleza de menino! O homem estupefato de alegria saltou do cavalo em um só rodopio e nem as esporas retirou das botas para invadir casa adentro riscando o assoalho de tábuas finas e bem tratadas com o fio de aço que trazia preso nas botas. A alegria daquele homem em ser pai era tamanha que o seu peito tornara se pequeno para abrigá-la de tão vasta que era a emoção. Em lágrimas de alegria ele se ajoelhou junto ao leito da mulher amada, acariciou-lhe os cabelos louros dourados e a beijou terno e apaixonadamente. Segurando as suas  mãos miúdas agradeceu em oração a ela e a Deus pelo presente recebido. Naquele momento podia se dizer que impossível seria de haver no mundo homem mais feliz que ele. E os dias, os meses, os anos foram despercebidamente passando e a criança foi ganhando destreza e em pouco tempo já engatinhava por toda a casa como fazem as crianças saudáveis. Logo depois já balbuciava algumas palavras como mamãe e papai, corria pelo quintal em companhia de Manequita, uma cadelinha branca com pintas pretas, uma vira-latas dócil e meiga. Quando a  noite chegava ele buscava a segurança no abrigo e carinho dos braços da mãe ou do pai quando esse se encontra em casa. Enquanto acariciavam os cabelos lisos e paecidos aos da mãe contavam-lhe lindas estórias inspiradas nos acontecimentos da lida diária da fazenda. E ele dormia, dormia sempre com um leve sorriso nos lábios. E à medida que ia crescendo e ganhando consciência das coisas pequenas e das grandes coisas que norteiam a vida dos homens, aumentava ainda mais o amor e a admiração que sentia por seu pai e a sua mãe. Era o reconhecimento de um filho ao carinho e amor recebido dos seus progenitores. Chegava às vezes ao absurdo em compará-los a Nossa Senhora e a São José, os pais de Jesus. Eram sentimentos puros, sentimentos de um filho que acreditava que o seu pai era no  mundo o mais feliz dos homens, pois tinha ao seu lado a mais bela de todas as mulheres; a mulher que o amava de paixão e que jamais o trairia neste ou em outros mundos. Eram, podia se dizer, um exemplo de família aos olhos de todos. E os anos distraidamente continuavam a passar por sobre a cabeça de todas as criaturas enquanto eles se distraiam em ser felizes. A criança deixou de ser uma criança e tornou-se um belo rapaz cobiçado por todas as mais belas donzelas das redondezas. Mas com o diziam os sábios Augures, não há nada que dure para sempre; nem mesmo a felicidade pode ser eterna! Numa certa manhã tombara enferma a sua doce e adorável mãezinha. Em laços de aflição e agonia recorreram aos melhores doutores até então conhecidos, mas para o desespero de todos ela padecia de um terrível mal, um mal que para o qual a ciência ainda não havia descoberto a cura. Foram quase três anos de agonia e sofrimento. Pai e filho se revezavam junto ao leito da esposa e mãe, queriam assegurar que nada lhe faltasse, para que mesmo no sofrimento, ainda tivesse um pouco de conforto, o possível para o momento. Era o mínimo que podiam fazer para retribuir anos de amor, carinho, atenção e dedicação doados a eles por aquela santa mulher. O sofrimento imposto a todos era avassalaor, tanto para o pai quanto para o filho que viram uma bela mulher de pele alva e rubra, cabelos compridos louros dourados, olhos cor de mel, lábios carnudos e um sorriso perolizado e largo, aos poucos irem ganhando aspectos amumiados. Os olhos foram aos poucos perdendo o brilho; os cabelos perdendo o viço e a coloração em queda contínua até abandonarem por completo o couro da cabeça agora calva; a pela alva e rubra perdeu a cor e murchou-se como a uma laranja velha; os lábios carnudos afilaram como a um fio de linha; o sorriso perolizado e largo ficou escuro e oco pela queda dos dentes que também abandonaram aquela boca antes desejada e cobiçada que pertencera um dia a uma linda mulher. Ninguém compreendia porque tanto sofrimento imposto a uma família de sentimentos tão puros e nobres, mas que era certamente a vontade de Deus. Em uma certa manhã descia do céu uma chuvinha fina e fria, o clima estava enevoado pois era inverno, o pai ocupado com os negócios da família tive que viajar as presas para tratar de assuntos importantes e inadiáveis. O filho zeloso de suas obrigações não arredou pé de junto do leito de sua mãe. De repente, entre um distrair e outro ele sentiu as mãos frias e gélidas de sua adorável mãe roçar-lhe o braço. Olhou cuidadosamente e viu lágrimas descerem-lhe pelas faces tristes e pálidas. Ele, então, retirou da algibeira um lenço branco e delicadamente enxugou-lhe as lágrima dizendo que tudo ia ficar bem. Ela então esboçou um leve sorrio e com voz rouca, quase muda, perguntou por onde andava o seu marido. O filho disse então à mãe que o pai havia ido à cidade cuidar de algumas coisas imprescindíveis, mas que em pouco tempo estaria de volta para ficarem todos juntos novamente. Ela prosseguiu dizendo ao filho: - que bom estarmos a sós meu amado filho; depois que caí enferma nesta cama pensei que nunca mais ficaríamos assim; escuta, preciso, antes que eu morra, confessar-lhe o meu pecado de mulher e quero que me perdoe filho, em seu nome e em nome do seu pai. O filho atônito não entendia que pecado de mulher seria esse que deveria ser perdoado por ele e por seu pai. Mas ela num esforço infinito prosseguiu dizendo quase sem voz: - faça por sua mãe meu filho aquilo que ela por covardia durante todos esses anos não teve coragem de fazer, me confessar ao seu pai; faça isso por mim meu filho, para que eu possa partir em paz com a vida e com a morte. Mas antes de se confessar a ele o meu pecado faça-o prometer a mim o seu perdão; diga a ele que ele foi o único homem que amei em toda a minha vida; diga isso a ele por mim, você promete meu filho? O filho fez sinal com a cabeça dizendo que sim, afirmando que atenderia todos os seus pedidos. Ela então continuou: - Ouça com atenção meu filho, não interrompa para que eu possa fazer a minha confissão; o homem que vive nesta casa, que desposou a sua mãe, que como pai o recebeu nos braços e que te deu nome e sobre nome não é o seu pai; seu pai é aquele homem que ia de casa em casa vendendo finos tecidos de rendas e sedas; você se lembra dele não lembra meu filho? Mas ele não mais está entre nós, morreu há alguns anos trás; mas eu precisava contar-lhe assim mesmo. O filho imóvel, alí junto ao leito de sua adorada e pura mãezinha não tinha palavras a dizer, apenas engolia o choro em soluços enquanto as lagrimas debruçavam-lhe na face. Ela então, com as mãos trêmulas e quase sem forças,  pegou do lenço branco que estava nas mãos do seu filho e enxugou-lhe as lágrimas do rosto dizendo: - filho não chores, não julgues a tua mãe, lembre-se de que ela é apenas uma mulher, bela enquanto jovem e com saúde, hoje sou uma morta viva mas ainda sou apenas uma mulher e é isso o que sempre fui; como todas as outras mulheres constituída de carne, sangue, sentimentos de amor, ilusão, sonhos e paixões; uma mulher sonha filho, sonha com as luzes, com os perfumes e com as flores; não se esqueça disso filho amado - das flores. Dito isso fez se um breve silêncio, depois um tênue suspiro e tudo cessou. Puro silêncio! A sua mão fria e gélida escorregou do braço do filho e pendurou-se a beira da cama como um pêndulo de um relógio quebrado, deixando cair ao assoalho do quarto o lenço branco como últimas palavras de um adeus da mãe ao seu amado.. Era o fim de uma agonia e agora ela podia descansar em paz e livre de pecados. O último suspiro para aquela pobre mulher trouxe-lhe a leveza dos nobres, livrando-a do peso que durante longos anos encerrou no seu peito e coração a culpa do pecado de um ato de amor. No dia seguinte realizou-se a cerimônia de sepultamento. O padre celebrou missa, fez um belo sermão apoiado no discurso da bondade, caráter, lisura e honradez daquela mulher e encomendou a sua alma a Deus e aos céus. O cortejo foi acompanhado por todos da redondeza formando-se uma grande fila pela estrada até o cemitério. Eram muitos os amigos e parentes que só arredaram pé do local após baixar à sepultara o caixão e cobrí-lo de terra e orná-lo a coroa de flores. Depois disso, atormentado com todas aquelas lembranças, o filho deixou a propriedade e se mudou para uma cidade grande onde vive até hoje. Ele ainda não conseguiu cumprir a promessa que fez para a sua mãe no leito de morte. É um bom filho, carinhoso com o pai como sempre foi em toda a sua vida. Sempre que pode visita o seu velho pai que já não anda muito bem de saúde. São os anos que passam para todos e sem piedade passou também para ele. E quando o visita, abraça-o e olha no fundo dos seus ohos e vê alí, escondidos, bem num cantinho dentro deles, ainda guardadas tristezas e magoas por ter perdido de modo tão cruel pelas mãos do destino, a doce e pura amada mulher! Então ele pergunta a se mesmo: - para que confessar a ele? De que servirá essa confissão se ela vai trazer apenas mais dor e desilusão ao coração de um pobre homem que amou tanto e ainda ama aquela linda mulher? O coração dele não resistiria tamanho golpe desferido pela mulher amada com a navalha do sexo. Não resistiria! Triste ele se resigna: perdoa-me mamãe, mas não vou me confessar a ele o seu pecado, ele será sempre o meu melhor amigo e o meu velho pai e senhora a minha amada e doce mãe. A senhora há de compreender e me perdoar também. Mas não vou, mamãe . Não posso!. (ele retira da algibeira o lenço branco que recolheu do assoalho e ainda guarda consigo,  enxuga dos seus olhos as lágrimas que desmaiadamente escorrem rosto abaixo enquanto tem a nítida certa de ver a silhueta de uma mulher que jura ser a sua mãe.) .



 Marinho Oliveira
29/05/2009

A NOITE NÃO É DAS MAÇÃS



Hoje me peguei, literalmente, devorando uma maçã. Estava ansioso aguardado um telefonema de uma pessoa muito especial e já passavam das vinte e três horas e ela ainda não tinha ligado, talvez não soubesse da importância para mim daquela ligação antes de dormir. Senti então que o meu estômago e a minha barriga combinavam alguma coisa sem consultar a mim, e de repente um ronco. Era a minha barriga me dizendo que o meu estômago necessitava de alimento. Pois bem, sem pensar direito me sentei no beiral da cama vestido apenas de uma cueca barata, dessas que se compram com preço variado de cinco a quinze reais – uma porcaria! Não sei porquê compro esse tipo de cueca – preciso deixar de ser...  você deve saber de qual cueca estou falando não sabe? É essa mesma, bem brega. Pois bem, pus-me de pé e de puro instinto fui até a cozinha, abri a porta da geladeira, revirei entre outras tantas que alí estavam e apoderei da mais bonita maçã, a que me pareceu mais bela e vermelha no momento. Fechei a porta da geladeira, dei uma esfregada com as mãos como se a acariciasse – não sei por que tenho esse hábito, sempre faço isso. Em seguida  minhas mãos a conduziu à minha boca de ávidos dentes que cravou-a de uma só vez. Foi nesse momento, quando senti os meus dentes perfurando a sua casca vermelho – pois eu não tiro com a faca a casca da maçã, acho frescura, e é na casca que se encontra uma grande quantidade de vitamina; não sei onde li isso nem sei se isso é mesmo verdade - mas isso não interessa. Foi nesse momento que dei por conta do que estava fazendo. Senti-me um troglodita devorando uma fragil maçã que nunca havia feito a mim nenhum mal. Pareceu-me que quando os meus dentes penetraram a sua casca e polpa ele gemeu de dor – eu juro que quase pude sentir isso. Ela fez um barulhinho assim: craaack! E eu entendi como se fosse um gemido ou suspiro de dor. Mas não parei de mordê-la. Naquele momento eu era mesmo um irracional, um troglodita devorando a minha caça, a minha prenda, caçada em uma geladeira e que aliviaria os meus órgãos pedintes. Devorei-a por inteiro; casca, polpa, só dispensei os pequenos frutos “sementes” que não me pareceram apetitosos ao paladar. Quando terminei o meu banquete fui à toalete – por quê toalete e não banheiro ou outra coisa...  sei lá o quê?  Fui ao toalete para uma perfeita escovação dos dentes e profilaxia bucal – faz bem escovar os dentes antes de dormir, além de um hálito gostoso evita cárie e pela manhã quando levantemos, a boca não amarga. Feita essa higienização retornei ao quarto e novamente sentei-me na cama. Foi aí que fiquei pensando tudo isso e resolvi colocar no papel. Fiquei pensando: Caramba, ela nunca me fez absolutamente nada; cresceu no campo onde foi semeada longe da cidade, era apenas uma arvorezinha que se fortaleceu, deu flores lindas e perfumadas, foram beijadas pelos beija-flores e os polenizadores, veio à chuva e banhou-a suavemente, ela se desenvolveu, suas pétalas desceram a terra, ela tomou forma de um grãozinho e foi ficando a cada dia mais vigorosa e bela – penso que foi aí o seu mal, ficar bela, pois quem a semeou não suportou ver tanta beleza e a colheu para trocá-la por dinheiro e assim o fez – a ganância do homem. Pobre maçã, que mal fez ela aos homens para merecer esse fim – ser deglutida por um bárbaro em pleno século vinte e um como se fosse um simples objeto de encher estômagos. E pensei: eu nem a conhecia? Mas sou eu quem foi ao supermercado, que a escolhieu entre outras tantas irmãs que ali estavam, que a pesou em balança eletrônica, que a ensacou em saco plástico, foi eu que a coloquei no porta-malas do carro e a levei para casa, que a joguei na pia, lavei, enxuguei, a coloquei na geladeira para ficar ainda mais saborosa e conservar a sua vermelhidão; fui eu quem fez tudo isso e ao final a devorei como um macaco selvagem. Engraçado! Macaco selvagem. Não tenho mais fome e depois que escrevi tudo isso, nem sinto mais tanta culpa de tê-la mordido, mastigado, deglutido, comido. Bom, chega de maçãs por hoje; vou dormir por que já são uma hora e treze minutos e ela não ligou; acho que não vai ligar mais. Será que ela também comeu uma maçã e esta pesou no seu estômago e agora ela dor dorme sonhando com pomares e por isso nem se lembrou de mim? Pode ser! Tudo é possível! Até mesmo amar quem apenas gosta da gente. Ah! Só por precaução: não coma maçã antes de dormir. Não ajuda em telepatia.

Marinho Oliveira
23 de dezembro de 2010