Conta à lenda, que certa vez um jovem e rico Judeu montado em seu dromedário e sob um sol escaldante seguia pelas areias do deserto rumo a uma prospera cidade vizinha. E quando lá chegasse, pretendia, a um rico comerciante daquela cidade pedir-lhe em casamento a mão de sua única e linda filha, com quem pretendia formar uma bela família e ter com ela muitos filhos. E eis que entre um urro e outro jogado ao ar pelos pulmões fortes do destemido e resoluto camelo, que no seu trotar removia as areias por debaixo de suas patas soltando-as ao vento e dando a ele a possibilidade de pulverizá-las por toda a planície ondulada formando alí grandes e vastos tabuleiros. Tabuleiros estes que eram capazes de levar à morte qualquer desavisado que se aventurasse por eles sem o devido conhecimento. Entre essa poeira fina advinda da areia solta ao vento, surge um objeto que de tão brilhante aos olhos do sol seria o objeto capaz de despertar a curiosidade de qualquer nobre que o visse. E não passou despercebido aos olhos daquele jovem e destemido viajante senhor. Sem nada temer aquele navegante das areias puxou da bainha a sua afiada espada e embicou de arma em punha a sua condução em direção do reluzente e desconhecido apetrecho. Cuidadosamente e cautelosamente aproximou-se do mistério, com a ponta de sua espada descobriu da areia a peça avistada - pois sua maior parte ainda encontrava-se submersa naquele mar de finos grãos. Vendo ser coisa inofensiva aos errantes, desceu da montaria e percebeu tratar-se de uma pequena lâmpada. Curioso e cheio de boas intenções pensou logo tratar-se de uma peça perdida por algum outro conterrâneo que antes fizera o mesmo caminho agora por ele percorrido. E certamente, quando chegasse à cidade, muito provavelmente teria a oportunidade de encontrá-lo e devolvê-la ao seu legitimo dono. Assim, recolheu das areias a lâmpada e a tomou em suas mãos cuidadoso. Zeloso e observador como sempre foi durante toda a sua vida, percebeu que a peça encontrava-se com algumas e pequenas manchas escuras, muito provavelmente causadas pelos efeitos do sereno da noite. Embora não fosse seu o objeto, a sua consciência lhe dizia que as manchas precisavam ser removidas para não causar danos à materia. E assim o procedeu. Pegou do bolso o seu lenço branco já um pouco umedecido pelo suor de seu rosto e o passou por sobre as manchas exercendo certa pressão e força. Era necessária a força para a devida remoção daqueles pontos que maculavam a preciosidade. Fez-se o movimento por uma vez, assoprou o pó, examinou o resultado alcançado. Era bom! Mas podia ficar melhor. Assim pensou ele. E repetiu por mais uma, duas vezes, que totalizaram três vezes o exercício executado. Tamanha foi a sua surpresa que aquele jovem e destemido senhor quase teve do coração um ataque fulminante. Quando ia assoprá-la pela terceira vez para ver o resultado do seu trabalho um forte estrondo aconteceu no interior da lâmpada que a fez saltar-lhe das mãos. Uma fumaça azulada saia do seu gargalho e girava no ar como um grande redemoinho. Ele mantinha a espada nas mãos e em posição de guarda - era um guerreiro e bravo lutador o jovem andante. O seu dromedário estava ajoelhado e assim continuava cabisbaixo como se também fosse o acontecimento alvo para o assombro da sua imaginação. Aquela fumaça azulada aos poucos diminuía e tambem diminuiam a velocidade dos seus giros e ia assumindo aspecto e forma de vida humana, transformando-se as cores em um forte homem de belo turbante arrodeado sobre a cabeça, pulseiras e colares de ouro e diamantes que enfeitavam-lhe o corpo; nas orelhas longos e maravilhosos brincos também em ouro e diamantes reluzindos pelo sol - que de tanto brilho quase ofuscava os olhos do observador. Por fim, postou-se frente ao jovem judeu, curvou-se cerimoniosamente como se estivesse frente a um rei e apresentou-se dizento: - Meu jovem e amo senhor, sou o gênio de um só desejo; a séculos fui aprisionado nesta lâmpada por um terrível mal feitor quando recusei atender-lhe o pedido para destruir o mundo; hoje fui liberto da prisão por alguém digno de ter um desejo atendido por mim; peça, que o seu desejo será uma ordem. O jovem errante, homem puro de alma e coração, desprovido de ambições toscas e desmedidas, buscou na consciência o que seria melhor, não para si, mas para o bem de todos os seres que habitavam aquelas terras. Pensou ele em muitas coisas que julgava ser importantes e, ao final acudiu-lhe a memória as barbáries produzidas pela falta de entendimento entre os homens daquele continente. E sem vacilar, sacou do alforje um canudo de alumínio e de dentro dele sacou um mapa mundi e disse: - Veja esse mapa meu bom gênio, está vendo esta região aqui? Pois bem, se tenho direito a um só pedido eu quero a paz no Oriente Médio e que todos nós possamos viver de hoje em diante, para sempre, em paz e sem as destruções das gerras que assolam essa nossa sofriga gente. O gênio olhou bem para o mapa, deu algumas voltas no ar, pensou em se encerrar na lâmpada novamente, mas resoluto e impassivo mudou de idéia e disse ao seu novo e temporário amo: - Meu amo, cai na real, o seu pedido é impossível de ser alcançado; esses paises guerreiam há mais de cinco mil anos, essas pessoas se alimentam do ódio e do sangue alheio; como quer o meu amo que eu em um estalar de dedos mude tudo isso? Impossível! Eu sou bom é verdade, mas não o suficiente para tanto; faça outro pedido ou desapareço para sempre! Aquele judeu de tão nobre coração entendeu a lógica da argumentação do gênio e concluiu que realmente aquele era um pedido impossível de ser atendido e, agora, cuidaria para que o novo pedido autorizado fosse menos complicado e pudesse ser, enfim, atendido. Voltou-se então ao gênio dizendo: - Considerando que o primeiro pedido não pôde ser atendido, farei o segundo como se o primeiro fosse; Gênio, até hoje não me casei por não encontrar a mulher ideal. Estou indo em busca da minha futura esposa e quero que ela seja uma mulher gostosa, bonita, jovem, carinhosa, que tenha senso de humor, que goste muito de sexo, não queixe de dores de cabeça, saiba cozinhar, limpar a casa, que não seja ciumenta, seja fiel, goste de futebol, aprecie uma cervejinha e não seja vidrada em cartões de créditos e infindáveis compras; esse é o meu pedido. Ao ouvir atentamente a tal solicitação o gênio rodopiava no ar como se um furação ou tufão a revirar as areais daquele deserto; pensou em desaparecer, em enterrar-se na areia de cabeça para baixo até atingir o cerne da terra e lá se espatifar; pensou em deixar de ser gênio e blasfemou contra a sua sorte. Mas ao final, sabendo de sua irrevogável condição curvou-se à sua sina de Gênio da Lâmpada e disse: Meu amo, deixa eu ver novamente essa porra desse mapa; porque o senhor só sabe fazer pedidos impossíveis.
Fim
Marinho Oliveira
06/06/2001