quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MULHER EM UM SALTO SÓ




Pedrito estava a passear pelas ruas do bairro em que morava no seu velho carro. Velho mais tão bem cuidado e zelado que chegava a ser confundido como se fosse um automóvel novinho. Era um opala quatro portas, rodas de alumínio ou liga leve não sei. Mas sei que de tanto serem lavadas, esfregadas, polidas as tais rodas e encerado o carro que dava para se pentear os cabelos e até mesmo usa-lo como um grande espelho de rua. Digo espelho de rua porque o danado do Pedrito não tinha se quer garagem para guardar o seu possante, que é como ele o chamava, pois morava de aluguel em uma pensão para rapazes. Casa essa em que ele e outros dividiam vagas no quarto. Em uma ocasião em que Pedrito estava a dar voltas pelas ruas, exibindo o seu troféu como se exibisse próprio pênis, ele parou fortuitamente em uma praça junto a uma igreja, era a derradeira hora em que o padre dizia: - que vão em paz e que deus lhes acompanhe. Era o horário do termino da missa das dez. E muitas e belas moças que aos sábados aproveitavam para espichar a noite, dormiam um pouquinho mais deixando para cumprir as suas obrigações para com o bondoso Deus nesse horário - a conhecida missa das dez. Assim, além de colocar em dia o sono atrasado também se livravam dos pecados cometidos na noite anterior e ainda teriam livre toda a tarde e parte da noite do domingo para saracotear pela cidade, como o fazem elas. Pedrito estacionou o seu gigante vermelho debaixo de uma frondosa arvore, talvez para fugir do sol, preservar a pintura e o estofamento. E ficou ali, parado, observando o movimento como se um gavião à espreita da casa. De súbito, olhou pelo espelho retrovisor e percebeu que vinha vindo em direção a que ele se encontrava estacionado uma mulher, a princípio, interessante. Alguma coisa de estranho nela chamou-lhe a atenção, mas de imediato não entendeu o que era. Então, firmou os olhos no retrovisor e percebeu que ela andava em altos e baixos, como se a causa fosse uma má formação física. Ela claudicava. Ele buscou reconhece-la mas sua memória não o acudiu. Optou então pela argumentação mais simples dentro de suas convicções, de que nunca a tinha visto por aquelas redondezas, e que por certo seria uma novata no bairro. Porém, apesar de claudicar era uma mulher muito bonita, fato que ficou logo bem certo para ele. Tinha os cabelos compridos e negros, olhos amendoados e cor de mel, pele cor de jambo. E apesar do aparente problema físico - o manquitolar - ela mantinha uma postura altiva e elegante. Sua expressão era calma e os lábios apresentavam um leve vínculo insinuando um constante e singular sorriso. Talvez estivesse a sorrir por dentro do que lhe acontecera momentos antes. Ele esbugalhou os olhos contemplando-a de alto a baixo. Pedrito percebeu tratar-se então, não de uma má formação física, mas um salto a menos em um dos sapatos usados por aquele elegante mulher. Menos mal, pensou ele e sorriu consigo mesmo. A falta daquele salto era o objeto que a fazia andar em mancos num toc toc descompassado. Foi então que lhe veio à cabeça aborda-la. Não tinha nada a perder - pensou ele. A principio a sua abordagem teria o tom de uma mera curiosidade: saber o que lhe furtou aquele pedaço de sapato. E ligeiro como a um gato ele preparou o pulo certo de que não erraria o bote. Quando ela se aproximou a uma distância de mais ou menos uns cinco metros da sua nave, ele se preparou e tomou postura de ataque; passou as mãos nos cabelos, olhou no espelho e fez alguns esboçou alguns sorrisos para ter certeza de qual cara fazer na hoja do ataque. Queria certificar qual seria o seu melhor sorriso caso a abordagem desse certo. Quando ela estava a passar pelo carro, ele fingindo que não a tinha visto abriu de súbito a porta esbarrando-se nela. De susto ela deu um gritinho delicado e deixou cair ao solo à bolsa que trazia consigo em uma de suas mãos. Pedrito se fez de atrapalhado - era a sua estratégia - e de pronto empenhou-se em pedir mil desculpas como se fosse um terrível acidente, não dando prazo sequer da mulher se zangar com ele, ficando ela limitada a ficar parada, imóvel, como uma estátua de bronze à sua frente enquanto ouvia as lamentações do pobre moço. Naquele momento, apenas a porta do veículo se punha entre os dois separando-os. Vendo o desespero do infeliz e atrapalhado rapaz, que afoito baixou-se ao chão, apanhando a bolsa e o que dela havia caido para entregar à sua legítima dona, ela suspirou aliviada, sorriu e disse:
- Precisa ter mais cuidado. Não me viste aproximar para passar? (perguntou ela)
- Não. Não vi! Mil perdões, mil perdões minha... (meio engasgado fingindo confuso)... Senhori... senhor...
- Senhora. (respondeu ela)
- Mil perdões minha Senhori... é quero dizer: - Senhora. É que eu...(Se embolou de vez)
- Eu o que? (perguntou ela indagativa)
- É que eu descia tão distraído do carro que não... (respondia ele, quando foi interrompido)
- Que não me viste? (ela completou)
- É exatamente isso. A Senhora... me perdoa? (ele já recomposto)
- Tudo bem meu caro, não é caso de pedir perdão. (ela condescendente)
- Então não está zangada comigo?  (perguntou ele)
- Claro que não. Afinal nada aconteceu. A não ser mais um pequeno susto. (disse ela)
- Mais um pequeno susto? (perguntou ele)
- Exatamente. Mais um pequeno susto (disse ela)
- E qual foi o outro, posso saber? (perguntou intrigado)
- Não há mal algum em dizer. (respondeu ela com um leve sorriso)
- Só diga se não for causar desconforto. (disse ele)
- Desconforto? Desconforto nenhum meu rapaz. (afirmou ela)
- Então o que foi? Sou todo ouvido.  (perguntou ele)
- Vinha eu caminhando pela rua, distraidamente...
- Assim como eu descia a do carro, não é? (ele a interrompeu)
- Não. Acho que não. (sorriu e continuou ela) Mas como dizia, vinha eu caminhando distraidamente, e ao cruzar aquela rua alí atrás, o salto do meu sapato ficou preso à grade do bueiro. (disse e sorriu)
- Que terrível acidente, (demonstrando ele preocupação) em tempo de torcer o tornozelo ou até mesmo fratura-lo.
- Não exagere meu rapaz, não pode se chegar a tanto quebrando um salto. (disse ela)
- Pode sim! Pode sim! Esses bueiros são perigos de mais para as Senhoras e Senhoritas.
- Você acha isso mesmo? (perguntou ela com ares enigmáticos)
- Claro que acho. (convicto) A prefeitura deveria ser responsabilizada por esses acidentes.
- Acidentes? (perguntou ela)
- Sim. Acidente. (afirmou ele)
- Mas foi só um salto de sapato, quebrado. (disse ela)
- Ainda bem.
- Ainda bem, o que? (perguntou ela)
- Ainda bem que foi apenas o salto do sapato. Já pensou...
- Pensou o que? (ela o interrompeu indagando)
- No que eu disse antes?
- O que você disse antes? (perguntou ela)
- Se esse acidente desse causa a uma torção de tornozelo ou fratura de pé. A senhora já pensou nisso? Eu não quero nem imaginar um troço desses. (disse ele)
- Não entendo meu rapaz? (ela com ares de mistérios)
- Não entende o que minha Senhora?
- Primeiro você quase me bate no rosto a porta do seu automóvel... (ela é interrompida).
- Foi sem querer. Foi sem querer, eu estava distraído. Já disse.
- Sim. Eu sei. Não estou acusando você de má intenção.  (respondeu ela) Mas agora leva ao extremo a perda de um salto de sapatos que por acaso do destino ficou preso a um bueiro. (ela sorri).
- Você tem razão. É que agora eu... (engasgou-se)
- Agora... você... o que? (ela o questionou)
- É que agora, depois que tudo aconteceu, eu...eu...
- Você o que? (insistiu ela)
- Eu ficaria muito chateado se acontecesse alguma coisa ruim com a Senhorita... quero dizer... com a Senhora.
- Diz do bueiro ou da porta do seu carro quebrando o meu nariz ou esfolando o meu rosto (disse ela sorrindo)
- De tudo. Das duas coisas (respondeu prontamente ele)
- Olha! Como és cavalheiro, hem? (sorrindo amavelmente)
- Obrigado. (todo sestroso) A Senhora é que é muitíssimo amável.
- Vejo que além de atropelador, és também um galanteador!(ela sorrindo)
- Perdão Senhora, eu não quis ser inconveniente, (constrangido) eu não quero...(ele aflito)
- Não meu rapaz, você não está sendo inconveniente.
- Não estou não? Não mesmo? (insistiu ele)
- Não. Inconveniente foi o meu sapato. (ela respondeu sorrindo)
- O seu sapato? Como assim?
- Quando resolveu deixar o salto preso a uma grade de bueiro, me fazendo andar como se fosse manca, não viu? E tudo isso em plena manhã de domingo. (sorri docemente amavelmente).
- Sinceramente não. Não vi que mancava. (ele mente elegantemente a ela)
- Quer que lhe mostre como andava? (pergunta ela)
- Não. Não é necessário. (respondeu ele) Não quero esse constrangimento a uma tão bela Senhora.
- Ora, você não quer esse constrangimento a mim? (ela sorri) Não percebe que terei de caminhar ainda alguns bons quarteirõesaté chegar a minha casa? (disse ela)
- Não terás de caminhar. (respondeu ele)
- Não terei? Como não terei? A minha casa não virá a mim. Eu terei de ir a ela, não achas? (disse ela)
- A sua casa não virá até a Senhora, mas eu posso levá-la até a sua casa e o faria com muito prazer. É para recompensá-la do susto (com ares de cavalheirismo)
- Você me levar até ela, até a minha casa?
- Sim. Se não houver risco para a nossa saúde. (ele sorriu e ela entendeu)
- Risco a nossa saúde? (ela também sorriu)
- E então, posso? (perguntou ele)
- O que?
- Levá-la até a sua casa? Já me disse que ela não virá até aqui. (sorrindo levemente).
- Penso que não há risco a nossa saúde. Hum! Acho que pode. (e sorriu para ele)
- Então vamos? (ele gentilmente abriu a porta do carro para que ela entrasse)
- Vamos! (disse ela)
- Mas que maçada, hem! (disse ele)
- O que?
- Esse seu sapato, ele não tem coração.
- Ah, não! Não tem mesmo. (disse ela) É couro pregado em madeira. (riem os dois e ela completa) Mas já teve coração um dia.
- O seu sapato? Quando? (Perguntou ele)
- Quando não estava ainda colado a madeira e andava a pastar pelos verdes campos.(respondeu ela)
- Os sapatos?
- Não. Os bois. (ela olhou para ele e sorriu um sorriso largo e feliz)
...
 ... no caminho até a casa onde fora levá-la, Pedrito descobriu que se tratava de uma jovem senhora, viúva de um rico empresário falecido há alguns meses atrás vítima de um desastre de avião. E que ao morrer, ela se tornou acionista majoritária de sua empresa, e que por sinal, os negócios iam muito bem obrigado. Descobriu também que a casa onde ela morava tinha garagem suficiente para o seu lustroso opala - quase um espelho - onde ele ficaria ao abrigo das intempéries do tempo. No coração da jovem Senhora viuva Pedrito achou abrigo para os seus anseios de homem e bom vivâ; o que o fez sem arrependimento, entregar a ela as chaves do seu amor e de todo o seu seu coração. Estão juntos há mais de dois anos e em menos de dois meses já serão três – ele, a mulher que manquitolava em um salto só, e o filho que ela espera. Parecem que pretendem se casar no dia em que for batizar o bebê.


Marinho Oliveira
12/06/2009