Hoje me peguei, literalmente, devorando uma maçã. Estava ansioso aguardado um telefonema de uma pessoa muito especial e já passavam das vinte e três horas e ela ainda não tinha ligado, talvez não soubesse da importância para mim daquela ligação antes de dormir. Senti então que o meu estômago e a minha barriga combinavam alguma coisa sem consultar a mim, e de repente um ronco. Era a minha barriga me dizendo que o meu estômago necessitava de alimento. Pois bem, sem pensar direito me sentei no beiral da cama vestido apenas de uma cueca barata, dessas que se compram com preço variado de cinco a quinze reais – uma porcaria! Não sei porquê compro esse tipo de cueca – preciso deixar de ser... você deve saber de qual cueca estou falando não sabe? É essa mesma, bem brega. Pois bem, pus-me de pé e de puro instinto fui até a cozinha, abri a porta da geladeira, revirei entre outras tantas que alí estavam e apoderei da mais bonita maçã, a que me pareceu mais bela e vermelha no momento. Fechei a porta da geladeira, dei uma esfregada com as mãos como se a acariciasse – não sei por que tenho esse hábito, sempre faço isso. Em seguida minhas mãos a conduziu à minha boca de ávidos dentes que cravou-a de uma só vez. Foi nesse momento, quando senti os meus dentes perfurando a sua casca vermelho – pois eu não tiro com a faca a casca da maçã, acho frescura, e é na casca que se encontra uma grande quantidade de vitamina; não sei onde li isso nem sei se isso é mesmo verdade - mas isso não interessa. Foi nesse momento que dei por conta do que estava fazendo. Senti-me um troglodita devorando uma fragil maçã que nunca havia feito a mim nenhum mal. Pareceu-me que quando os meus dentes penetraram a sua casca e polpa ele gemeu de dor – eu juro que quase pude sentir isso. Ela fez um barulhinho assim: craaack! E eu entendi como se fosse um gemido ou suspiro de dor. Mas não parei de mordê-la. Naquele momento eu era mesmo um irracional, um troglodita devorando a minha caça, a minha prenda, caçada em uma geladeira e que aliviaria os meus órgãos pedintes. Devorei-a por inteiro; casca, polpa, só dispensei os pequenos frutos “sementes” que não me pareceram apetitosos ao paladar. Quando terminei o meu banquete fui à toalete – por quê toalete e não banheiro ou outra coisa... sei lá o quê? Fui ao toalete para uma perfeita escovação dos dentes e profilaxia bucal – faz bem escovar os dentes antes de dormir, além de um hálito gostoso evita cárie e pela manhã quando levantemos, a boca não amarga. Feita essa higienização retornei ao quarto e novamente sentei-me na cama. Foi aí que fiquei pensando tudo isso e resolvi colocar no papel. Fiquei pensando: Caramba, ela nunca me fez absolutamente nada; cresceu no campo onde foi semeada longe da cidade, era apenas uma arvorezinha que se fortaleceu, deu flores lindas e perfumadas, foram beijadas pelos beija-flores e os polenizadores, veio à chuva e banhou-a suavemente, ela se desenvolveu, suas pétalas desceram a terra, ela tomou forma de um grãozinho e foi ficando a cada dia mais vigorosa e bela – penso que foi aí o seu mal, ficar bela, pois quem a semeou não suportou ver tanta beleza e a colheu para trocá-la por dinheiro e assim o fez – a ganância do homem. Pobre maçã, que mal fez ela aos homens para merecer esse fim – ser deglutida por um bárbaro em pleno século vinte e um como se fosse um simples objeto de encher estômagos. E pensei: eu nem a conhecia? Mas sou eu quem foi ao supermercado, que a escolhieu entre outras tantas irmãs que ali estavam, que a pesou em balança eletrônica, que a ensacou em saco plástico, foi eu que a coloquei no porta-malas do carro e a levei para casa, que a joguei na pia, lavei, enxuguei, a coloquei na geladeira para ficar ainda mais saborosa e conservar a sua vermelhidão; fui eu quem fez tudo isso e ao final a devorei como um macaco selvagem. Engraçado! Macaco selvagem. Não tenho mais fome e depois que escrevi tudo isso, nem sinto mais tanta culpa de tê-la mordido, mastigado, deglutido, comido. Bom, chega de maçãs por hoje; vou dormir por que já são uma hora e treze minutos e ela não ligou; acho que não vai ligar mais. Será que ela também comeu uma maçã e esta pesou no seu estômago e agora ela dor dorme sonhando com pomares e por isso nem se lembrou de mim? Pode ser! Tudo é possível! Até mesmo amar quem apenas gosta da gente. Ah! Só por precaução: não coma maçã antes de dormir. Não ajuda em telepatia.
Marinho Oliveira
23 de dezembro de 2010