...era um dia sexta-feira, se lembro bem. Não era um daqueles dias em que se pode dizer: “que maravilha de dia”! Carece que chovia. Uma chuva fininha que lentamente molhava o chão tornando-o escorregadio que mal se podia ter de pé. Os cabelos de quem nela se aventuravam ficavam como as folhas orvalhadas nas manhãs de sereno forte. O azul do céu permanecia escondido encoberto pelas grossas nuvens escuras que num bailado astral brincavam com os nossos olhos, trazendo a eles certo ar de mistério neste céu a voar sobre as nossas cabeças. Poderia se dizer mesmo que, um ar funesto dominava aquele momento! Não se assuste amigo, não se pode dizer que funesto para um dia como aquele seja uma palavra um tanto quanto sombria. Pois, revirada as lembranças guardadas na memória de Jomacoli, refazendo todos os acontecimentos daquela sexta-feira, até que caberia bem aplicá-la ao contexto que se apresentou a ele. Pois revirando o baú de suas memórias sem precisa ir ao fundo, por se tratar de fatos relacionados com um passado recente, fica ao seu juízo o possível exagero quanto à parte funesta. Vejamos... havia já alguns dias que por capricho dos deuses Jomacoli encontrava-se privado de ver a sua amada e ouvir a sua doce voz, que para ele era como o canto da brisa nas manhãs ensolaradas acariciando os seus ouvidos. Jomacoli sentia se frustrado, uma sensação de impotência quanto a sua capacidade em convencê-la, no sentido de deixar alguns dos seus afazeres para dedicar um pouquinho do seu tempo a ele ou a eles. Essa sensação fazia os seus sentimentos em borbulhões e toda vez que pensava nela - o que acontecia quase que o tempo todo - sentia-se faltar por debaixo dos pés o chão sólido e firme a se pisar. Incontido em seus devaneios acabou de almoçar e tomou em suas mãos um aparelho telefônico celular, respirou fundo como se fosse um adolescente ou talvez como tenha respirado pela primeira vez quando chegou a este mundo. Apertou então número a número do teclado, aguardou o som de chamada que logo foi completado. Refez aquela respiração profunda e lenta e se segurou alguns segundos e depois, do outro lado da linha veio aos seus ouvidos a suave e doce voz, aquela em que ele esperava ouvir, que o atendeu dizendo: - Oi meu bem! Era ela, a sua amada! Iniciou-se então uma conversa amistosa e amiga. Eram palavras e frases curtas, quase que tão frias como a chuva que insistia em cair do céu naquele dia. Jomacoli ao perceber a falta de entusiasmo que a cercava e a frieza nas suas palavras, tinha vontade de desligar o aparelho e dar por encerrada aquela conversa, pois encontrava-se engasgado, constrangido e quase que chorando. Durante aquela conversa de frases curtas passavam milhões de coisas em sua mente, sentia-se como se fosse um pequeno inseto sentado em uma poltrona enquanto falava ao telefone tentando convencer a uma deusa que era zeus. Enquanto isso ela se justificava dizendo dos seus compromissos, os planos de aulas a ser preparados, os livros a serem lidos na a sua preparação para enfrentar novos concursos, a tese que defendia e etc... Era uma argumentação lógica, plausível e que se sustentavam em si só pela argumentação apresentada. Jomacoli já sem capacidade argumentativa e sem perspectivas em demovê-la de encerrar-se a si mesma, não se continha de desânimo em sua pequenez e sentia-se como a um náufrago afogando em suas próprias palavras ou na falta delas. Quando de repente, como se num estralar de dedos, lembrou que naquele dia ela poderia chegar ao seu locar de trabalho um pouco mais tarde, como acontecia nas sextas-feiras. Ele então não perdeu tempo, como AS da espada sacou instintivamente de novas forças e se ofereceu para acompanhá-la. Disse que aguardaria até o seu horário de final do expediente com muito prazer e sem causar constrangimentos - coisas de homem apaixonado. Talvez por tanta insistência de sua parte ela acabou por aceitar a sua insignificante companhia. Cheio de felicidade, deixou o trabalho um pouco mais cedo e até deu um banho de gato no carro, daqueles em que se lava apenas do lado de fora. Tomou um banho caprichado, passou água de colônia, dessas baratas que se compra em supermercados - mas que tem um bom cheiro - haja vista não poder usar perfumes por problemas de pele. No horário marcado, com uma pontualidade Britânica, Jomacoli apareceu sorridente e feliz. Ao perceber a sua chegada ela empenhou-se de seus pertences e declinou a descer os degraus da escada. Ao ouvir os seus passos num toc-toc aos degraus seu coração acelerou como se um carro de fórmula um. Respirou fundo e percebeu suas mãos tocando no trinco do portão que se abriu lentamente como se ela estivesse certificando dos acontecimentos naquele local antes de se expor. Por fim, ela se mostrou por inteiro aos seus olhos. Estava simplesmente, linda! Vestida com roupas simples, calça jeans, azul; camisa, branca; uma blusa de lã em tom acinzentado e um tênis claro. Ela sempre fica bem em vestis simples ou em quaisquer outra - deve ser por sua beleza natural e a silhueta do seu corpo sempre em forma. Trazia nos ombros uma bela bolsa café; nas mãos e apoiados nos braços muitos livros - talvez os livros fossem, silenciosamente, objetos de sustentação dos seus argumentos ao telefone. E se essa foi a sua intenção, talvez inconsciente, ledo engano. Não é preciso provar absolutamente nada a um homem apaixonado. Geralmente, eles acham lindo, justo, acredita em tudo o que elas fazem e dizem. Com Jomacoli não era diferente. Talvez por não estar muito seguro de si e até mesmo um pouco embaralhado com os seus pensamentos e a visão que tivera dela, faltou-lhe o cavalheirismo e a boa educação que sempre tivera, não desceu para abrir a porta do automóvel para que sua amada entrasse. Limitou-se há tão somente esticar um pouco para a direita e com a ponta dos dedos puxou a maçaneta, o que fez com que abrisse a porta. Ela entrou rápido, carregando toda aquela tralha, como se não quisesse ser vista por mais ninguém naquela hora. O engraçado é que atitudes semelhantes já aconteceram antes também. Embora, em situação diferente. E ele nunca entendeu o por que de tal comportamento. Ela é maior, dona do seu nariz, capaz, inteligente e não tem que dar satisfação a ninguém do que faz ou deixa de fazer. Mas vai entender as mulheres, até mesmo as cultas e sábias. Mesmo com toda aquela parafernália que trazia consigo, elegantemente se colocou no interior do carro acomodando o seu delicado corpo no banco dianteiro e prendendo-o com o cinto de segurança. Docemente sorriu; um sorriso doce, inocente e breve. Em seguida, com voz meio presa e quase inaudível disse: - então, vamos meu bem! Com ares de bobo-alegre e extasiado diante dela Jomacoli ligou o carro, engrenou uma primeira e lá se foram os dois; ela trabalhar e ele de cão de guarda. “Fico pensando comigo mesmo, o que pode fazer o amor a um homem apaixonado - vira criança.” Ele, então, contemplou com olhos lânguidos novamente o céu, pois queria ver se as nuvens haviam deixado em paz o azul e as estrelas que teimavam insistentemente se manterem escondidos nas suas sombras. Àquela hora já era noite e todo um dia, a contar do telefonema, já havia se passado. Mas o céu não lhe sorriu, continuava escuro como breu. Não se via nehuma pequena mancha azulada nem tão pouco um pontinho luminoso ao qual pudesse chamar de estrela. Jomacoli em seu silêncio disfarçado, engolindo em seco a saliva dos seus pensamentos, entendia que São Pedro, provavelmente, estava de mau humor e que talvez tivesse se aborrecido com alguma alma incauta - que dada a sua ingenuidade - poderia ao aportar-se nos umbrais da entrada do paraíso tecido algum comentário desonroso aos ouvidos de outras almas desocupadas a cerca do comportamento de Pedro. E isso pudesse ter enredado em uma fofoca e chegado aos ouvidos do todo poderoso, que por sua vez o reprimiu severamente. Motivo pelo qual, dado o aborrecimento de Santo o céu encontrava-se em tal estado. “È. Só mesmo um louco de amor para tais devaneios. Chega ser quase que insanidade.” Certo é, que ele balançou a cabeça como quem o faz para expulsar os maus pensamentos e seguiram em frente, rumo ao destino de sua amada para o seu labor diário. Jomacoli a olhou de canto do olho, já que precisava ficar com olhos fixos na estrada que se encontrava molhada e escorregadia. Ela percebeu e ambos sorriram um sorriso amarelo e meio sem graça. Algumas palavras foram trocadas durante o percurso. Falaram de coisas sem importância e corriqueiras do diaa dia; falaram também um pouco de suas vidas, dos relacionamentos pessoais passados e outros assuntos de igual importância - porém mal resolvidos. Fato é que quando menos se esperou chegaram ao destino - o local de trabalho - onde mais uma vez ela se esconderia dos seus olhos por mais algumas horas. Ele calmamente estacionou o carro debaixo de uma árvore e se dirigiu depois a uma cantina que ficava no interior do estabelecimento onde fez um pequeno lanche. Na realidade não estava com fome, estava nervoso, isso sim! Depois apossou de um livro que estava em sua bolsa e foi degustar uma boa leitura sobre o cinema brasileiro. Precisava arrumar o que fazer para esperá-la. Coisa que Jomacoli fazia sem nenhum sacrifício - um servo. Mas venhamos e convenhamos, esperar por mais de três horas em um só lugar e sem nada fazer não é fácil. Até mesmo para um homem apaixonado. O engraçado é que a leitura o prendeu tanto que em um certo momento deparou com algumas pessoas já saindo do prédio e resolveu consultar as horas. Pois não é que para o seu espanto já haviam passado às três horas e quarenta minutos. Jomacoli ajeitou novamente as roupas no corpo, guardou na bolsa o livro e quando olhou novamente para a escada de saída do edifício e lá estava ela no alto dos degraus, parecia estar a contemplar um Anjo. Desta vez sim, ele desceu do carro e gentilmente abriu a porta para que ela entrasse. Fez o que se espera que faça um homem educado e cortês. Ela rapidamente entrou no carro, a chuva não havia dado trégua, continuava em sua pirraça de chuva manhosa. Todo o ritual fora feito novamente: o de ligar o carro, desta vez acender os faróis, engrenar primeira e sair lentamente com destino ao ponto de partida – casa de sua amada. Jomacoli dirigia vagarosamente, não tinha nenhuma pressa em chagar. Queria ficar mais tempo possível ao seu lado, pois sabia que outra oportunidade havia de lhe custar muitos telefones e dias a fins. Mas como toda distância é marcada por dois pontos, não importando se reta ou curva, mesmo devagar, para sua tristeza, chegaram ao local de onde antes saíram. Jomacoli parou junto ao portão de acesso à sua casa e olhando-a nos olhos o seu corpo todo pedia para que não a deixasse sair. Mas não fez absolutamente nada! Apenas a olhava com admiração e desejos. Ela então sorriu com o mesmo ar de sempre, doce, sereno, calmo e leve – com a brandura dos anjos, soltou o cinto de segurança, ergueu-se para o seu lado e lhe deu um terno abraço. Agradeceu pela companhia e lhe desejou boa noite. Ele teve vontade de apertá-la em seus braços e não deixá-la sair; o seu corpo pedia silenciosamente que ele a beijasse com sofreguidão. Mas Jomacoli nada fez! Limitou-se a descer do carro ajudando-a a abraçar toda aquela tralha – bolsa, livros e etc... E antes do último boa noite perguntou quando voltaria a vê-la. Eu te ligo – ela respondeu. Retirou da algibeira um molho de chaves, escolheu uma e a enfiou na fechadura; a porta se abriu e ela entrou para o seu merecido descanso na clausura do seu lar. Ele entrou no seu automóvel e rumou para sua casa cheio de esperanças, sonhando com a felicidade, acreditando um dia poder se enredar na teia do amor e nos braços de sua amada. Acordou sorridente no dia seguinte, mas ela não ligou. Foi assim no segundo, no terceiro e nos outros dias futuros. O seu sorriso de homem apaixonado transformou-se num ar triste como o ar funesto daquele fatídico dia em que Jomacoli a viu pela última vez. Ele incansavelmente buscava e rebuscava em sua memória o que poderia ter acontecido naquele dia para afugentá-la tanto; o que teria feito de tão grave para merecer tamanho desprezo? Mas não encontrava respostas às suas perguntas. Então, Jomacoli curvou-se à sua insignificância e para acalmar os seus ais, todos os dias antes de dormir olha a foto de sua amada registra no celular, mentalmente lhe deseja uma boa noite e mente para si mesmo dizendo que ela vai ligar. E na esperança, deixa sempre o telefone celular embaixo do travesseiro. Mas, ela nunca mais ligou! Coisas de sexta-feira, eu acho.
Fim
Marinho Oliveira
04/03/2010