Era uma manhã de sábado quando o Senhor Aloísio vestiu-se de sua bermuda azul, calçou tênis importado e camiseta de grife; fez funcionar o motor do seu veiculo e com imponência dirigiu-se a um importante supermercado desta cidade para ali comprar alguns poucos produtos, pois notara estar em falta na sua geladeira. Lá chegando cuidou ele de estacionar o seu veículo onde não houvesse outros carros parados, era um dos cuidados que ele sempre tivera, pois tinha medo que algum motorista não tão habilidoso quanto julgava que o fosse, viesse a esbarrar e amassar o seu possante.Tomados os cuidados de praxe, o Senhor Aloísio afastou se do veículo após observar, cuidadosamente, se ele estava bem trancado com todas as portas inclusive o porta-malas. Certificado disso empenhou-se de um carrinho e adentrou ao supermercado em busca da sua satisfação - andar pelos corredores empurrando um carrinho, observar as pessoas que por ali circulam, e comprar mesmo quase nada. O Senhor Aloísio, enquanto percorria os corredores entre uma gôndola e outra observou que sempre estava a lhe seguir uma velhinha muito simpática, de olhos azuis, pele alva e bem cuidada, cabelos ondulados e de tamanhos médios e tinhas a cor dos algodões a luz do sol. E sempre que os seus olhos cruzavam comos dela, ela deixava um belo sorriso escapar dos seus lábios e irem ao seu encontro. Ele parava para pegar algum produto e ela a alguns passos repetia a operação. Aquilo de certa forma o incomodava. Mas fazer o que? Era uma graça de velhinha! E ele para ser gentil, como um cavalheiro também retribuía o sorriso. Afinal, não há mal algum em sorrir para uma simpática e carismática vovó. Certo é que o Senhor Aloísio, como o de costume, comprou quase nada. Estava mais a passear pelos corredores naquela bela manhã de sábado, como dizem por aí, “a matar o tempo” observando as pessoas. Umas ele as cumprimentavam e outras não, por não serem de sua amizade pessoal - eram conhecidos dali mesmo, de encontros casuais quando de outras compras. O fato é, que a vovó despertou nele muitíssima curiosidade. Gostaria ele de saber quem era ela, mas mantinha a distância e não fez pergunta alguama a ela, não queria ser indiscreto. Porem, não podia deixar de atentar para o carrinho empurrado pela vovó, ao contrário do seu que estava quase vazio - uns pingados de compra - o dela estava simplesmente abarrotado de produtos variados, diversos! Era uma fartura de dar gosto ver; era feira para mais de um mês em casa cheia. Satisfeito da sua extravagância com o dinheiro, chegou à derradeira hora do Senhor Aloísio enfrentar com galhardia a bendita fila do caixa. A velinha se apressou com o seu carrinho e tomou posição na frente dele e sempre com um sorriso blandicioso de vovó dócil e amável, a empurrar um carrinho abarrotado de compras como se ali estivesse uma linda criança. Foi nesse momento, que ela contemplou nos olhos do Senhor Aloísio, com voz tremula, um meio sorriso nos lábios disse-lhe:
-Espero não tê-lo incomodado; mas é que você se parece muito com meu falecido filho... (o semblante da vovó entristeceu por um instante e ele viu brotar nos olhos daquela simpática e amável velhinha uma gota de lágrimas)
- Não! É... Fique tranqüila, a senhora não incomodou de jeito nenhum; está tudo bem. Tudo bem mesmo! (tudo isso ele respondeu com um nó na garganta, ele se parecia com um filho que daquela senhora fora pelas mãos do destino levdo)
- Posso lhe pedir algo incomum? (disse-lhe a simpática velhinha)
- Sim. Se eu puder lhe ajudar será um imensurável prazer. (disse o Aloísio)
- Você pode se despedir de mim dizendo: - Adeus, mamãe, nos vemos depois? É que assim dizia meu filho querido. Ficarei muito feliz ao ouvir esta frase novamente! (a voz da vovó estava triste)
- Claro, senhora! Não há nenhum problema. Se isso a deixará feliz, considere-o feito. (disse ele para alegria da velhinha)
Enquanto o Sernhor Aloísio se distraiu a olhar uma jovem senhora que acabava de entrar no supermercado e lhe desferiu um olhar de caça, a velhinha passou então pela caixa registradora, se voltou sorrindo e agitando suas mãos e disse-lhe:
- ADEUS filho. (disse ela)
- ADEUS mamãe, nos vemos depois. (Cheio de amor e ternura, ele respondeu a ela efusivamente)
- Sim, filho. Nos vemos depois querido. (disse ela e foi se embora)
Contente e satisfeito por ter propiciado um o pouco de alegria ao coração sofrido de um doce velhinha, chegou a vez do Senhor Aloísio ir ao caixa registrador que conferiu as suas minguadas compras com leitor de códigos, sendo o resultado acompanhado pela voz rouca e meio áspera da moça do caixa que entregou-lhe o valor da conta impresso em fita amarela dizendo: - R$ 554,29, (são quinhentos e cinqüenta e quatro reais e vinte e nove centavos.(disse a moça)
- Tá louca? Dois sabonetes, duas pilhas, um papel higiênico e um creme dental? (questionou o Senhor Aloísio cheio de irritabilidade)
- Mais e as compras da sua mãe? Ela disse que você as pagaria!!!!! (retrucou a moça do caixa registrador)
- VELHA FILHA DA PUTA! Foi à única exclamação proferida por ele à moça do caixa registrador que nada entendeu e limitou-se ao silêncio e a pensar, se aquelas seriam as palavras certas para um filho dignar à própria mãe - assim pensou ela. Ele retirou da carteira o seu cartão de cretidos, dividiu a compra em três vezes e jurou consigo mesmo que nunca mais em sua vida, falaria ou sorria para uma velhinha dentro de um estabelecimento comercial, nem na rua ou em velório.
Marinho Oliveira
12/05/2004