Já haviam passados mais de vinte anos em que Ana e Paulo estavam casados. Embora tivessem uma aparência ainda jovem - graças aos cremes e aos cuidados de ambos para com a pele, pois sempre foram eles bastante vaidosos - já percorriam a faixa entre os quarenta e cinqüenta anos de idade. Desde os velhos tempos de namoro naquela cidadezinha do interior de Minas Gerais onde nasceram, sempre foram muitíssimos apaixonados e cuidadosos um para com o outro. Diziam aqueles que os conheciam que pareciam eles dois pombinhos; que foram feitos um para o outro e que formavam um belo casal - perfeito e bonito. Naquela época os namoros eram muito comedidos porque eram vigiados; principalmente em uma cidade pequena onde todo mundo conhece todo mundo, sabe quem é namorado, namorada, mulher, marido, filho, filha, sobrinho, parentesco e em alguns casos até quem é o padrinho de quem. Privacidade: zero! O fato é que os dois pombinhos sentindo a necessidade de atender aos clamores do corpo pois os hormônios estavam a fervilhar, não houve outra forma a não ser a de contrair o sagrado matrimônio com a bendita igreja enfeitada, padrinhos para mais de duzia, dama de honra, festa de casamento, arroz ao sair da igreja, latas velhas amarradas no pára-choque do seu velho carro e etc. Uma vez atendida a voz da sociedade pudica que na maioria das vezes é quem dita quem pode ir para a cama com quem - punido impiedosamente aos que margeiam os seus proclames - os dois já casados viviam felizes, sendo amigos, companheiros, homem e mulher um para o outro já que a natureza lhes poupou a graça de terem filhos. Mas por melhor que seja um relacionamento o tempo é impiedoso, ele vai preguiçosamente registrando as suas marcar nas células do nosso corpo e sem que as percebamos elas vão ficando a cada dia mais profundas e se mostrando a todos. Assim também aconteceu com aqueles dois, estando agora mais para gaviões que pombinhos. Já se distanciavam um do outro sem sentirem tanta falta ou quase nenhuma. Saiam ainda juntos, iam à missa aos domingos, passeavam nas casas dos amigos mais próximos e também dos parentes, às vezes sentavam se juntos no banco da praça matriz nos fins de tarde, mas o por do sol não tinha mais o brilho e a beleza de antes. Já não havia mais todo aquele carinho e cuidado de um para com o outro, fato também compreensível, não eram mais namorados e há muito tempo eram marido e mulher. À noite, quando iam dormir, não havia aquele interesse e aquela curiosidade em ver o outro se despir. Tornara depois de muitos anos um acontecimento comum e banal aos seus olhos. Quando iam fazer sexo, faltava aquele frenesi, o frio no estômago, na espinha e os gemidos e sussurros eram quase surdos; os orgasmos não eram mais uma revolução, uma convulsão, estavam mais para um tremelique e nada além disso. A mulher horas antes ou até mesmo durante as relações sexuais, quase sempre se queixava ao marido de dores de cabeça. E isso muitas vezes os fizeram interromper o ato até mesmo antes de o começarem. Pensando a mulher que a sua dor de cabeça se tratava de um problema maior ao que ela em sua auto avaliação batizara como sendo “enxaquecas”, resolveu procurar um Clínico Geral para fazer uma primeira avaliação. Após minuciosos exames de tomografias, resonâncias e radiografias, nada de anormal foi constado naquilo em que ela insistia em chamar de “chapa da cabeça”. Concluindo o médio que o problema poderia ser de ordem psicológica, pois manifestava sempre, segundo a paciente, quando iniciava os primeiros ensaios para um possível ato de amor, ele, convicto de seu diagnóstico a recomendou aos serviços de um profissional da área de psicologia. Tendo em mãos o encaminhamento acomanhado do criterioso relatório, compareceu ela ao consultório indicado apresentando-se ao novo profissional, entregando-lhe os exames feitos e “as chapas da cabeça” que nada de anormal indicavam. Nessa primeira visita e que já funcionou como consulta ela foi encaminhada a uma sala, onde em companhia de uma enfermeira e do Psicólogo fez um resumo de sua vida deste os tempos de infância. Falou das suas lembranças de criança, adolescência, da primeira paixão, do primeiro namorado, do primeiro amor, de todos os namoros e do casamento. Discorreu também relatar toda a sua vida de casada desde o sim no altar, passando pela noite de lua de mel até chegar àquele fatídico dia de sua vida no consultório de terapia. Concluido essa parte da consulta e com o diagnóstico da paciente em mãos, deu-se oinício do tratamento propriamente tido e que perdurou por uns seis meses com freqüência regular de uma vezes por semana. Ela nunca faltava, tinha interesse em se curar daquela bendita - para dizer a verdade - maldita dor de cabeça. E tamanha foi sua surpresa que ao final dos seis meses de terapia já se sentia inteiramente renovada, sem dores ou reclamações na hora de fazer amor com o seu adorado e amado marido. Ele, porem, começou a apresentar indisposição, falta de desejo e apetite sexual deixando-a um tanto quanto chateada e preocupada; e tal foi sua chateação que acabou por confessar ao marido o tratamento que fizera as escondidas, sugerindo a ele que também o fizesse; pois quem sabe se também lhe voltaria o apetite e desejo pelo sexal como aconteceu a ela? O marido arregalou os olhos, interessou-se pelo assunto e no dia seguinte, à primeira hora do dia já estava à porta do consultório a espera do médico - que o recebeu de pronto. Tal qual fora feito com a mulher, ele também foi conduzido a uma sala onde relatou toda a sua vida, desde as suas primeiras lembranças de infância até as lembranças daquela data. Assim ele o fez e o tratamento perdurou também seis meses. Numa certa noite o marido entrou correndo em casa, no meio da sala arrancou as roupas ficando completamente nú, agarrou com sofreguidão a esposa e a levou nos braços para o quarto, jogou a na cama, rasgou nos dentes as suas vestes e disse a ela: - Estou curado! Não se mova daí que eu volto logo. Ele foi correndo ao banheiro e voltou instantes depois; pulou na cama e fez amor de maneira muito apaixonada como nunca antes havia feito. A esposa então falou: - Meu amor, foi maravilhoso! O marido disse novamente à esposa: - não saia daí que eu volto logo. Ele se levantou e foi correndo ao banheiro; voltou, fez amor novamente com a esposa, e desta vez, a segunda foi melhor que a primeira. A mulher se sentindo uma deusa na cama, sem dor de cabeça e girando em êxtase com aquela experiência extraordinária e nunca antes vivida - duas relações sexuais em tão pouco tempo e com tanta qualidade - então ela disse ao marido: - você meu amor é o melhor amante do mundo! O marido cheio de si disse à mulher pela terceira vez: - então espera aí meu amor que eu vou ali e volto logo. A mulher não se cabendo de felicidade e curiosidade se levantou e pé-anti-pé foi atrás do marido ver o que se passava. Tamanha foi a sua surpresa ao encontrar o marido diante do espelho do banheiro dizendo: - esta não é minha mulher é a gostosa da filha do vizinho; esta não é minha mulher é a gostosa da filha do vizinho; esta não é minha mulher é a gostosa da filha do vizinho; esta não é minha ... Ele dizia esta frase repetidas vezes com impetuosidade, brilho nos olhos e muita paixão. No dia seguinte fez-se o sepultamento de Paulo, que segundo laudo do IML, teve morte por afundamento da caixa craniana ocasionada por queda no banheiro de sua residência durante o banho.
Marinho Oliveira
12/06/2006