domingo, 3 de janeiro de 2016

A NAVE





... era uma vez, uma nave muito especial que navega pelo cosmos a bilhões e bilhões de anos, dia e noite noite e dia, sem nunca parar na viagem para reabastecer e nem mesmo para a realização de pequenos reparos, pois ela parecia inquebrável. A sua tripulação era composta de seres muito estranhos e de caráter não muito confiável, não devendo estes serem avaliados por sua enganadora aparência. Entre os navegantes haviam seres fisicamente lindíssimos, outros mais ou menos lindos, outros eram apenas bonitos, outros tantos mais ou menos bonitos, uma grade parte eram feios, e outro tanto podiam ser chamados de horríveis! Mas a nave continuava ininterruptamente o seu destino, a sua jornada, levando-os sem hesitação bordo. Eram os dias substituindo as noites e as noites substituindo os dias, e essa alternância causava um efeito muito desagradável em sua tripulação, pois com o passar dos dias e das noites transformava os seres que eram lindíssimos em apenas seres mais ou menos lindos, os que eram mais ou menos lindos em seres bonitos, os que eram bonitos em seres mais ou menos bonitos, os que eram mais ou menos bonitos em seres feios, os que eram feios transformavam-se em horríveis, e os anteriormente horríveis ficavam vencidos retornando à integridade física da nave. Mas, para que a nove pudesse continuar a sua jornada nasciam muitos outros seres lindíssimos, por que é dessa energia que ela se alimenta, até que um dia irá se desintegrar, levando consigo todos os seus navegantes.
03 de janeiro de 2016
Marinho Oliveria

sábado, 18 de julho de 2015

AMAR É SER LIVRE

 
 
Sempre pensei no amor como um sentimento sereno, um fio invisível de liberdade a ligar emoções entre duas ou mais pessoas, e não como uma circunstância de ocasião a propiciar a posse, a tornar cativo o outro para a satisfação do egoísmo doentio daquele que diz “eu te amo”. Amar a outrem ou ser amado é não ter, é não ser, é estar. É estar livre para voar rumo a novas emoções sem temer o abismo, é contribuir para que a pessoa objeto desse amor seja também livre para voar sem restrição de tempo e espaço. Pois o verdadeiro amor é desprendido de ambições e colheitas, é aquele que traz felicidade a quem ama mesmo quando a pessoa amada está feliz a dormir em outros lençóis. A mar é não querer para si alguém que não o deseja na mesma carne! 

Marinho Oliveira
18/07/2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

AMIGOS & RÓTULOS





Chega-se a uma fase da vida em que se é ridículo experienciar novos e outros sentimentos, mas também é ridículo se curvar aos dogmas do puritanismo pudico e não os experienciá-los, visto que a vida se constrói daquilo que vivemos e também daquilo que deixamos de viver durante os anos dessa nossa mesquinha e medonha existência. Como pode alguém dizer não estar pronto para viver novos e quaisquer sentimentos, amores, paixões, desilusões, e até mesmo o luto que cobre o fim de algumas esperanças, se outros tantos sentimentos foram vividos antes mesmo de aprontarmo-nos para vivê-los? Será que "o viver" ao invés de descomplicar complica-se ainda mais a cada instante e a cada dia o que se vive ou possa ainda ser vivido? Ou será que são os homens que estão se tornando cada vez mais rudes, juízes carrascos cruéis consigo e com o outro? Se nos cabe responder a tais perguntas numa perspectiva de compreensão que seja mais ou menos lógica, calçada em nossa filogenia, história de vida, e nos impositivos da cultura, melhor então fechar os olhos e lançarmo-nos nas avenidas com os olhos vendados entre os automóveis desgovernados, a ter de enfrentar a fúria humana dos rótulos de valor espumantes da saliva daqueles que cuidam das nossas vidas mas não pagam as nossas dívidas. Por isso costumo dizer que há menos risco estar na pista com automóveis desgovernados a estar em companhia de certos “amigos”



Marinho Oliveira

30/06/2015

BOLACHAS!




Enquanto hoje conversava com uma ave em meu quintal, silenciosamente ela respondia-me apenas com gestos graciosos de sua cabeça erguida contra o sol meio desfalecido, visto que aquela inocente alma não dispunha do aparelho fonador dos humanos, encontrando-se assim impedida pelo destino de contra-argumentar para os meus ouvidos e afetos. Mas ela compreendia todos os sentimentos a que eu exprimia, ora discordando ora concordando, manifesto claro no seu ritual simbólico de se expressar, no girar para frente, para trás, para baixo e para cima, e no ato do serpentear o crânio que se movia como a um pêndulo no ar. Por fim, provavelmente, entediada das minhas argumentações lamuriosas bateu asas e voou, deixando-me a sós, prostrado em uma cadeira depositada sob a sombra de uma jabuticabeira, em uma tarde de sol mortiço sem nada esperar, sem nada a propor. Naquele momento veio-me uma centelha de lucidez, foi quando perguntei a mim mesmo: - ora pois, como estás a conversar com uma ave, perdeste o juízo meu rapaz, enlouquecestes, pois não sabes tu que certas aves não falam, são irracionais para o entendimento dos homens, não sabes tu que elas apenas gorjeiam?; então, o que fazes tu a estas horas sentado a uma sombra e a conversar com um pássaro do peito amarelo?; responda-me se se achas que és um homem! Sem uma resposta que fosse plausível, entre a lucidez e a loucura, silenciei por alguns instantes, olhei para mim mesmo como a se desculpar de mim, meio acabrunhado, olhei para os lados para me aperceber se vizinhos não fitavam os seus olhos em mim, como costumam fazer os cuidadores da vida alheia, e como não haviam pares de olhos depositados sobre esta carcaça, dei de ombros, desisti das minhas arguições, e num gesto de humildade a dar razão à minha racionalidade irracional, caminhei a passos lento até a cozinha, preparei um café e o tomei com bolachas. Nessas horas, as bolachas se tornam as melhores companhias! Está servido?

Marinho Oliveira
30/06/2015

sábado, 20 de junho de 2015

CAMA & SENHORA


 

Para todas as manhãs o fim está no escurecer
...
Na algazarra dos pássaros clareia-se o dia
O relógio convida-nos para a realidade da vida

Enquanto desperto de uma cama quase deserta
A calar do relógio a campainha o seu tormento

Sento-me à beira da cama a calçar das sandálias
Levanto-me a atender as iniciais necessidades
No espelho ao barbear fito um olhar perdido
Na confusão que se cria de se perguntar a mim 
Aonde estará a dona das flores e das estrelas

Estranha pergunta  de 
se fazer eu a mim mesmo
Sei onde andas, a cama e companhia da noite
Mas finjo à realidade nessa loucura das aparências

Reprovo-me a chamar-me de tolo acriançado
Vou para lida como a rés caminha ao abatedouro
No fim do dia regresso à minha cama  senhora
Durmo meu sono sem sonhos de expectativas
E na manhã seguinte tudo se reproduz
Marinho oliveira
20/06/2015

DESTINO



 
 
Se eu fosse homem de fé
Pediria aos pássaros para vigiá-la
Não a vigília do cerceamento
Da castração, do tolher a liberdade
Mas a vigília do dar assas para voar
Do cuidar para que vivas teus sonhos
Mas como não sou homem de fé
Apenas contemplo as possibilidades
Quando todos os dias ao pensar em ti
Que sejas no mundo a mais feliz


Marinho oliveira
20/06/2015

DELÍRIO



Se eu pudesse beber no cálice da tua boca
Certamente seria saciada a minha sede amar
Se meu corpo estivesse enlaçado nos teus braços
Banhado do suor do nosso prazer em êxtase
Os nossos suspiros teriam o aroma das rosas
E os nossos gemidos o brilho das estrelas

Como é doce pensar em você toda nua
Despida da maldita pele que o homem criou
Por que ocultar dos olhos essa formosidade
Se é por ela que sonho e eternamente vivo

Desejoso da febre de mergulhar-te amar e viver

Marinho oliveira
20/06/2015