Enquanto hoje conversava com uma ave em meu quintal, silenciosamente ela respondia-me apenas com gestos graciosos de sua cabeça erguida contra o sol meio desfalecido, visto que aquela inocente alma não dispunha do aparelho fonador dos humanos, encontrando-se assim impedida pelo destino de contra-argumentar para os meus ouvidos e afetos. Mas ela compreendia todos os sentimentos a que eu exprimia, ora discordando ora concordando, manifesto claro no seu ritual simbólico de se expressar, no girar para frente, para trás, para baixo e para cima, e no ato do serpentear o crânio que se movia como a um pêndulo no ar. Por fim, provavelmente, entediada das minhas argumentações lamuriosas bateu asas e voou, deixando-me a sós, prostrado em uma cadeira depositada sob a sombra de uma jabuticabeira, em uma tarde de sol mortiço sem nada esperar, sem nada a propor. Naquele momento veio-me uma centelha de lucidez, foi quando perguntei a mim mesmo: - ora pois, como estás a conversar com uma ave, perdeste o juízo meu rapaz, enlouquecestes, pois não sabes tu que certas aves não falam, são irracionais para o entendimento dos homens, não sabes tu que elas apenas gorjeiam?; então, o que fazes tu a estas horas sentado a uma sombra e a conversar com um pássaro do peito amarelo?; responda-me se se achas que és um homem! Sem uma resposta que fosse plausível, entre a lucidez e a loucura, silenciei por alguns instantes, olhei para mim mesmo como a se desculpar de mim, meio acabrunhado, olhei para os lados para me aperceber se vizinhos não fitavam os seus olhos em mim, como costumam fazer os cuidadores da vida alheia, e como não haviam pares de olhos depositados sobre esta carcaça, dei de ombros, desisti das minhas arguições, e num gesto de humildade a dar razão à minha racionalidade irracional, caminhei a passos lento até a cozinha, preparei um café e o tomei com bolachas. Nessas horas, as bolachas se tornam as melhores companhias! Está servido?
Marinho Oliveira
30/06/2015