Encontra-se a minha língua azeitada e escorregadia na saliva molhada da minha boca a espreita da primeira
oportunidade para gritar e proclamar ao mundo a sua independência. E padece, pois a oportunidade nunca vem. E ela continua em seu universo alojada na cela úmida da cavidade bucal,
encerrada e vigiada por enormes dentes ávidos a devorá-la caso insista em
cometer essa insanidade.
Os
meus olhos refletindo um brilho triste também se contentam em contemplar a beleza
do universo espelhada das estrelas, da lua e do sol, que parecem como se
pendurados no teto azul de uma sala de brincar; e o vento e a brisa a roçar nas folhas
acariciando-as num sussurro de cantiga de ninar; as águas do mar num balanço ora agitado ora preguiçoso em um bamboleio descontraído a se quebrar na encerrada da areia
branca pisada de nossos pés. Mas, pobres dos olhos meus que estão sempre vigiados
por enormes cílios que mais parecem Flechas Espartanas e pálpebras que cuidam
em se fechar sempre que eles se atrevem a ir mais além do que se pode ver. Até mesmo na hora do sono
elas se fecham para impedir que eles se lancem a outros mundos.
O
meu coração agitado e lépido sempre a bater desesperadamente, amarrado por
enormes cordas que o prendem ao meu corpo, escravizando-o a um trabalho forçado ininterruptamente a todos os segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses
e anos em que eu estiver vivo; e nessa luta aflitiva ele quase arrebenta o meu
peito alucinado em atravessá-lo para contemplar de perto o universo sonhado. Mas está encarcerado e
trancado na caixa do meu tórax, o seu trabalho continuará até que ele desista
de lutar pela liberdade e resolva, enfim, dormir.
O
sangue que circula no meu corpo é como as águas dos rios e dos mares que nunca
descansam, estão sempre desesperadas, apressadas a procura de uma fuga que
quase sempre nunca vem; às vezes quando minha carne se rompe levemente em acidente uma pequena
porção se aventura na fuga e logo é contida e se perde. Enquanto o restante continuará
retido e na corrida por todo o meu corpo nessa busca incansável de uma porta para outro
universo.
Assim
é a vida, cheia de portas, que mesmo estando abertas nem sempre são amigáveis ou
estão prontas a serem atravessadas por nós; e muitas das vezes, quando se abrem,
nem sempre é o convite que esperávamos.
Precisamos medir com cuidado, com muito cuidado caso o nosso objetivo,
necessidade ou até mesmo a nossa curiosidade nos impulsione a passar por elas;
pois uma porta pode tanto nos proteger ou nos lançar à glória, ou se transformar em terrível armadilha para nos
devorar. Assim são as portas, todas elas, muito pouco confiáveis. As portas humanas, são de todas as portas, as menos confiáveis e as mais letais.
Marinho Oliveira