sábado, 8 de dezembro de 2012

LACAIOS DA MISÉRIA




Hoje enquanto caminhava pela cidade... eis que de repente, vindo do nada, como uma sombra, um augúrio, como quem a germinar do chão diante dos meus olhos aparece uma alma miserável e infecta.

Suas vestes que foram um dia de cor clara, tinham agora a cor avermelhada da impregnação do pó da terra e da falta de zelo e dos bons cuidados de almas puras.

Trazia o miserável no domínio da mão direita, em frangalhos, um livro de capa preta considerado sagrado; no sovaco esquerdo um periódico vencido; mais abaixo, suspensa no ar como plumas ao vento e travada pelas pontas dos dedos cor de chão, uma garrafa de aguardente que da qual já se havia sugado mais de dois terços.

Aquela sombra era peculiar, singular em todas as exibições; a uns três metros adiante de mim, caminhava lentamente, parava, grunhia em resmungo incompreensível alguma coisa, dava um pulinho, corria uns três passos, estacava-se novamente, depois repetia toda a estripulia sem dar conta do mais.

Esse bazar frenético perdurou por uns três quarteirões até atingirmos a porteira humana da Avenida Afonso Pena e que nos permite convergir para a Avenida Amazonas; alí o seu espírito estacou como um asno assustado.

Foi como se alí houvesse um grande fosso com águas profundas, habitadas por enormes crocodilos ávidos a devorar quem se atrevesse atravessa-lo sem a prévia licença das feras.

Uma imensa curiosidade arrebatou-me até à parede de uma edificação de esquina, onde recostei para observar o gigante vindo das sombras e que atormentava o meu instante.

Ele permaneceu imóvel por uns cinco minutos, como uma estátua de pedra a fitar os próprios pés descalços; julguei voltar-lhe a memória nesses longos minutos misericordiosos.

Engano. Súbito, virou-se bruscamente, caminhava agora em ziguezague, em xis, em zes, indo e vindo como num balé dançado por rãs e sapos; e de repente estacou-se novamente, abriu os braços em forma de cruz, despencou do sovaco ao solo o periódico vencido inundado de suor fedido a consciência impura.


Mas ela continuava firme nas mãos do pregador presa e suspensa no ar pelos dedos da mão esquerda a bendita garrafa de aguardente; na outra mão, a direita, o frangalho sagrado; ele respirou fundo e começou a esbravejar aos céus e aos infernos o bom e o mau tempo dos homens nesta terra e tudo era desconexo.

A sua voz enrouquecida, apesar da altura e do grave tom, era um eco surdo perdido na multidão; mas continuava a urrar em altos brados, queria a tenção dos desesperados que se atropelavam e não ouviam nem viam o miserento a clamar por justiça em suas preces satânicas aos deuses surdos.

Naquele momento insano, era ele o mais sábio dos deuses e falava a língua dos anjos e demônios, tinha a chave e o poder; o suor que lhe brotava das têmporas e minava pelos poros escorria e molhava-lhe as vestes, exalando odores ardentes e febris, enquanto suas narinas largas e gananciosas engoliam as fuligens defecadas pelos canos das descargas dos gigantes que despencavam pelas avenidas.

Aquela convulsão da miséria aflitiva, onde a liberdade se confunde com a realidade epilética às avessas, trouxe-me a agonia amarga na vertigem que se confundiam no fastio da ânsia e no vômito do alimento não digerido pelo homem ungido de mente sã e vivente das trevas.

Arrebatei-me sem olhar para trás; naquele instante tive a consciência que a areia movediça e a lama que borbulha sob os pés daquela alma escrava, somos todos nós; conscientes ou não, somos o inferno da miséria do céu sobre a terra a ser de todos nós  a ser expurgada de nós.


Marinho Oliveira
08/12/2012