segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

BALADA DA NOITE




À noite me atormenta e não me acalma vomitando no meu travesseiro esse hálito quente e fedido dos restos putrefatos e não digerido desses homens mortos de riqueza e ganância.

Os meus pés continuam frios mesmo enfiados na fornalha onde o fogo não se apaga e as brasas são o alimento das criancinhas raquíticas moribundas esqueléticas a sugar no peito das mães suor e dor porque leite alí já não há.

Os meus olhos há muito estão cegos por não enxergarem por trás das cortinas paredes muros cofres a fórmula onde tudo se refresca no banho deleitado das abelhas no néctar das flores.

Sinto que o meu coração pulsa mas não bate pois encontra-se afogado no sangue dos seus mares e rios contidos em leitos aureolados onde tudo é menos e mais mistério que a própria vida.

Dentro de mim tudo queima pois o vomito ora é engolido ora expelido pelas cavidades superiores que involuntariamente trabalham contra mim nesse mísero momento aflitivo.

Lá fora ouso pássaros assoviando uma melodia angelical onde a suavidade dos seus cantos se comunga num belo hino de redenção ao último suspiro desse filho da terra ao verme pensante.

O meu leito já não é mais a cama onde antes o meu corpo para descansar mas onde desceu por uma noite e agora é de madeira ornamentada a tampa fechada e vidro transparente sobre a face.

Mãos que nunca antes me tocaram seguram firmes as alças do meu novo leito enquanto caminham taciturnos por entre a floresta de jazigos onde finalmente serei depositado em nova moradia.

Ouso cordas rasparem nas madeiras do meu eterno leito e entre solavanco percebo estar sendo descido ao primeiro andar de onde nunca mais ouvirei vozes lamentos ou preces finalmente.

Tudo está escuro e ninguém mais encontra-se ali somente eu e o meu corpo que começa a exalar o mesmo hálito de quando a noite passada ao me visitar inesperadamente se apaixonou a enamorar de mim e a me levar consigo.

Aquele fogo já não queima o meu interior os meus pés saíram da fornalha o ar não me faz falta menos ainda às pessoas e o meu corpo sente leve beliscões que me provocam uma sensação de cócegas nunca antes sentida.

Sei que posso quase chegar ao êxtase com essas carícias movimentos que o meu próprio corpo produz de si para si numa curiosidade tamanha em saber da intensidade.

Não se preocupe pois você não será esquecido e também terá o seu momento de beliscões na carne em porções de cócegas na putrefação .


Marinho Oliveira