Hoje me vesti da minha melhor roupa para ver a lua
Estava com muita sede da prata vinda do céu
Atravessei os umbrais que sombriamente
enclausuravam-me em meus aposentos
como se a confundir-me a um morfético
Em passos cautelosos deslizei pela varanda
Como a lebre a despistar dos famintos por sangue
Pus-me no terreiro ainda tímido
como quem chega à festa sem convites
A minha cabeça vagarosamente
iniciou um movimento pesado
e sofrível por sobre os ombros
e sofrível por sobre os ombros
Por um momento pensei que o meu corpo
não a sustentaria por muito tempo naquele grau
Meus olhos lentamente foram se abrindo
como se abrem as rosas nas madrugadas primaveris
Buscando no vazio deixado pelas profundezas
de um abismo espacial infinito
o recorte do cosmo por quem ansiava minh’alma.
Mas o céu se esqueceu de desenrolar e estender
o tapete azul e o chão de estrelas
A lua se deixou esconder
por uma camada de grossas nuvens
que produzia as mais íntimas trevas do inferno
Os raios cortavam em cicatrizes riscando em zes
o rosto do infinito sangrando-me aos olhos
Os trovões combinavam
sons de gingantes enfurecidos
Eram os deuses contrariados
com a minha sagaz e estúpida lucidez
em querer me embriagar de fios dourados
Despi-me de quaisquer vaidades
que antes havia impelido-me a tal atrevimento
A passos trépidos refiz o inverso
atravessei os umbrais para não ser devorado
pelos cães do infinito sedentos de glórias
De dentro do escuro quarto onde me refugio
pude ver quando a lua muito tarde e orgulhosa
se fez mostrar pela fresta da minha janela
Marinho Oliveira
02/05/2012
02/05/2012