domingo, 27 de julho de 2014

MULHER AZARADA



Numa cidade de porte médio tudo é possível. Cenário o interior de um ônibus azul que parou junto a um ponto para apanhar pessoas na Avenida Augusto de Lima no Barro Preto em Belo Horizonte. Parou com a elegância costumeira de sempre e já conhecida de todos que usam esse tipo de transporte, as portas foram abertas reproduzindo o som do lançamento de morteiros. Uma vez oferecida a possibilidade de acesso, entraram duas senhoras que pela aparência estavam deixando para trás a bela fase das Balzaquianas. A princípio chamou-me a atenção os volumes em sacolas que traziam penduradas de todos os lados. Fizeram-me lembrar dos meus tempos em fazenda e dos animais utilizados para o transporte. Sei que essa minha analogia é uma injustiça, mas confesso, me passou pela mente quanto a imagem de tantos volumes distribuídos a apenas duas pessoas. A primeira das mulheres entrou no ônibus sem nenhum percalço; aquela que estava por último, ao pendurar o pé no primeiro degrau da escada de acesso, já nos fez ouvir as suas ruidosas gargalhadas. A mulher que já se encontrava dentro do ônibus, se sentindo incomodada e até mesmo um pouco constrangida com todo aquele ruído produzido pelas gargalhadas de sua parceira, vira repentinamente e pergunta: - quê que foi muié? A outra responde em gargalhadas: - uma goteira caiu dentro do meu oio, acredita um trem desse? A outra responde: - só ocê mesmo! Vira-se novamente em direção a roleta e ao cobrador, paga em espécie a sua passagem e caminha como se um general até uma das cadeiras, que por sorte estava vazia devido a não existência de muitos passageiros e senta-se, acomoda-se na cadeira e na cadeira ao lado e no chão do ônibus junto aos seus pés, camodam as sacolas. A mulher gargalhadora consegue chegar até a roleta e começa, com a pouca parte da mão que lhe sobra vazia, catar nos bolsos uma nota para o pagamento da passagem. Encontra finalmente a bendita nota mas ao retirá-la da algibeira junto vem o celular em capa cor-de-rosa e que vai diretamente beijar a lata branca do piso do ônibus. O beijo foi tão forte que ele dividiu-se em três partes: capa, bateria e corpo. Não é que a mulher não perdeu a pose! Soltou mais uma longa e bela gargalhada da sua desgraça e nem se enrubesceu. Um jovem que estava sentado próximo a essa batalha, gentilmente catou os pedaços do aparelho falante, reorganizou tudo montando-o novamente e entregando-o a ela, que sorrindo agradeceu ao jovem mancebo. Uma vez guardado o aparelho e a passagem paga, o motorista que já havia colocado em movimento o veículo engata outra marcha e acelera, o ônibus dá um salto para frente fazendo com que a mulher que estava ainda encostada junto a roleta, caminhe a trote a quase cair de nariz dentro daquela máquina mortífera. Ela solta outra gargalhada enquanto trota para não cair, as sacolas batendo para todos os lados e ao final, se segura em uma das cadeiras, estabiliza-se o trote, num suspiro ainda sorrindo diz: - Ai, coisa de muié veia! A outra questiona: - muié veia? Ela se senta, acomoda-se confortavelmente em outra cadeira, acomoda também as sacolas, respira e diz: - é, passou dos trinta já é veia. Sua parceira muda de assunto e pergunta: - vai almoçar o que hoje, quiabo com frango? A outra, agora séria responde: - Com esse frio ...

Marinho Oliveira
27/07/2014