terça-feira, 29 de julho de 2014

BREVE TEMPO



Com o breve passar do tempo
As cores vão se esmaecendo
O sol da manhã já não brilha
E o azul do céu de brigadeiro
Empalidece e perde a pompa

Com o breve passar do tempo
As flores já não exalam olores
Suas pétalas perdem o colorido
Afugentam-se os beija-flores
Pois o néctar já não os convidam
Para a visita que os embriagam

Com o breve passar do tempo
Silenciam-se as gargalhadas da vida
Já não há luz no fio que a conduz
Da claridade que vai se nevoando
A mergulhar em profunda escuridão

Com o breve passar do tempo
Deixam de ser sonhados os sonhos

A porta bate à realidade mesquinha
A nos entregar aquilo que criamos

Com o breve passar do tempo
O escurecer da noite torna-se tormenta
Aliando-se à morte que nos espreita
De debaixo de nossas camas
Ou até mesmo de dentro de nós

                    
                    Marinho Oliveira
                              29/07/2014

domingo, 27 de julho de 2014

MULHER AZARADA



Numa cidade de porte médio tudo é possível. Cenário o interior de um ônibus azul que parou junto a um ponto para apanhar pessoas na Avenida Augusto de Lima no Barro Preto em Belo Horizonte. Parou com a elegância costumeira de sempre e já conhecida de todos que usam esse tipo de transporte, as portas foram abertas reproduzindo o som do lançamento de morteiros. Uma vez oferecida a possibilidade de acesso, entraram duas senhoras que pela aparência estavam deixando para trás a bela fase das Balzaquianas. A princípio chamou-me a atenção os volumes em sacolas que traziam penduradas de todos os lados. Fizeram-me lembrar dos meus tempos em fazenda e dos animais utilizados para o transporte. Sei que essa minha analogia é uma injustiça, mas confesso, me passou pela mente quanto a imagem de tantos volumes distribuídos a apenas duas pessoas. A primeira das mulheres entrou no ônibus sem nenhum percalço; aquela que estava por último, ao pendurar o pé no primeiro degrau da escada de acesso, já nos fez ouvir as suas ruidosas gargalhadas. A mulher que já se encontrava dentro do ônibus, se sentindo incomodada e até mesmo um pouco constrangida com todo aquele ruído produzido pelas gargalhadas de sua parceira, vira repentinamente e pergunta: - quê que foi muié? A outra responde em gargalhadas: - uma goteira caiu dentro do meu oio, acredita um trem desse? A outra responde: - só ocê mesmo! Vira-se novamente em direção a roleta e ao cobrador, paga em espécie a sua passagem e caminha como se um general até uma das cadeiras, que por sorte estava vazia devido a não existência de muitos passageiros e senta-se, acomoda-se na cadeira e na cadeira ao lado e no chão do ônibus junto aos seus pés, camodam as sacolas. A mulher gargalhadora consegue chegar até a roleta e começa, com a pouca parte da mão que lhe sobra vazia, catar nos bolsos uma nota para o pagamento da passagem. Encontra finalmente a bendita nota mas ao retirá-la da algibeira junto vem o celular em capa cor-de-rosa e que vai diretamente beijar a lata branca do piso do ônibus. O beijo foi tão forte que ele dividiu-se em três partes: capa, bateria e corpo. Não é que a mulher não perdeu a pose! Soltou mais uma longa e bela gargalhada da sua desgraça e nem se enrubesceu. Um jovem que estava sentado próximo a essa batalha, gentilmente catou os pedaços do aparelho falante, reorganizou tudo montando-o novamente e entregando-o a ela, que sorrindo agradeceu ao jovem mancebo. Uma vez guardado o aparelho e a passagem paga, o motorista que já havia colocado em movimento o veículo engata outra marcha e acelera, o ônibus dá um salto para frente fazendo com que a mulher que estava ainda encostada junto a roleta, caminhe a trote a quase cair de nariz dentro daquela máquina mortífera. Ela solta outra gargalhada enquanto trota para não cair, as sacolas batendo para todos os lados e ao final, se segura em uma das cadeiras, estabiliza-se o trote, num suspiro ainda sorrindo diz: - Ai, coisa de muié veia! A outra questiona: - muié veia? Ela se senta, acomoda-se confortavelmente em outra cadeira, acomoda também as sacolas, respira e diz: - é, passou dos trinta já é veia. Sua parceira muda de assunto e pergunta: - vai almoçar o que hoje, quiabo com frango? A outra, agora séria responde: - Com esse frio ...

Marinho Oliveira
27/07/2014

domingo, 29 de junho de 2014

GATO DE TELHADO


Sou como os gatos solitários
Passeando em noite escura pelos telhados
A contemplar estrelas cintilantes
Bordadas no manto azul do céu.
É na solidão que encontro com o meu Eu
A lapidar o melhor de mim.  

Não me roubem esse capricho!

Marinho Oliveira
29/06/2014

PLANOS



Planos?
Não! Já não os faço mais.
Alcancei o sublime estágio no qual a vida deve seguir o seu curso normal sem atropelos ou lamentos.
Na viagem que fiz nas minhas estações e que guiaram-me até aqui, calcei-me das sandálias da minha infância de quando o tempo para a vida parecia-me infinito e o céu apenas um lugar distante.
Hoje, a consciência diz-me que sou a própria vida; e, que o céu, eu já o tenho na palma das mãos.

Marinho Oliveira
29/06/2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os Tolos!






Ao passarmos pelo tempo, vemos dissipar a névoa que ofuscava os nossos olhos a nos tornar míopes e cegos. É nesse momento que a lucidez vem bater em nossa porta, a debruçando sobre os nossos ombros, sem piedade, toda a verdade universal e única sobra a vida. E então, percebemos que passamos uma vida inteira mergulhados e perdidos nos sonhos das irreais ilusões e perdidos em utopias. A vida é se constrói de uma única coisa: realidade! E aquele que vive apenas sonho está no limbo dos vivos e não despertará para a vida e morrerás como um tolo sem consciência do seu próprio existir.




Marinho Oliveira
08/05/2014