Nos últimos
tempos parece que virou moda, fetiche, ou boa educação sair por aí desejando
felicidade a todo mundo. Há pessoas tão dissimuladas que desejam felicidades
até para os seus inimigos. Porém, de boca para fora é claro; porque na
realidade gostariam é de trucidá-los. Esse é um fato e não uma suposição de um
sujeito ranzinza e implicante com a vontade alheia. Mas, mesmo que
machuque alguém, é bom que se fale a
verdade de vez enquanto, só para nos lembrar da nossa grande hipocrisia e essa
falsa necessidade de querer nos mostrar tão bonzinhos. Coisa que, certamente,
não o somos. Nem eu e nem você que acaba de ler e fazer cara feia.
Quando vejo
escrito esse monte de felicidades desejadas ou ouço sendo cantada aos quatro
cantos desse nosso mundinho medonho, tenho a nítida impressão que a felicidade
é um produto disponível e que se encontra espalhada por aí nas gôndolas dos
supermercados da vida. Onde todos nós podemos pegá-la a gosto, encher o nosso
carrinho das vaidades e das vontades, passar ao caixa registrador para ler o
código de barras, sacar do cartão de crédito, pagá-la e leva-la para casa para
bem desfrutar dessa tal felicidade ao
nosso bel prazer.
É claro que a
felicidade pode ser alcançada por todos e quaisquer de nós; mas independe da
vontade alheia. Porque, para ser feliz, não precisamos que outros queiram ou
que nos desejem. Precisamos, por primeiro, nos preparar e nos conhecermos
enquanto pessoa, racional - se é que o somos; conhecedores das nossas
fraquezas, necessidades, ambições, potencialidades, e equilíbrio para nos
relacionar com as grandes ou pequenas coisas que certamente irão nos
surpreender positiva ou negativamente a todo dia, a toda hora. E poucos de nós
somos capazes de bem resolver esses conflitos naturais sem corremos para
debaixo das nossas camas debulhando em lágrimas. Isso
acontece até mesmo quando elas não rolam rosto abaixo por serem engolidas por
nosso orgulho.
Aquele que
pensa que a sua felicidade está em ter um bom emprego, altos salários, carros
novos ou importados para exibir aos amigos, ou na pessoa do outro a quem ele
considera a sua perfeita outra metade; esse está fadado, certamente, a passar
pela vida como um urubu correndo sempre em busca de outra carniça. E pobre
daquele que se iludir com os argumentos de uma pessoa assim e cair em sua
malha, pois passará também a viver em dualidade e exaustivamente a dois, o seu naufrágio
em vida interminável e infernal. Pois a felicidade não está nestas coisas, não
está na pessoa do outro e tão pouco nesses penduricalhos que o dinheiro possa
comprar para o seu ornamento. O conforto, o dinheiro, isso ajuda e são
necessários, pois não podemos esquecer que vivemos num bloco de capitalistas
mequetrefes. Mas não é ele a mola principal para propiciar o impulso rumo à
felicidade.
Felicidade é
outra coisa! Felicidade é paz de espírito! É conhecer a si como se é, é ter a
consciência de quem si é. Se precisássemos de todo esse inferno pendurado nas
vitrines das grandes lojas e do ronco dos motores pulsando a vários cavalos, de
tudo o que a mídia escrita, falada e televisiva tentam a cada segundo nos
enfiar goela abaixo para sermos felizes, o que dizer então dos sertanejos que
andam de roupas remendadas, pés descalças e se mostram felizes e sem rancores para
com a vida que levam? Talvez seja porque mesmo sem essa intelectualidade do
homem da cidade e que se diz culto e sábio, seja o sertanejo muito mais sábio até
mesmo quando não teve a oportunidade de se aprender a ler uma única vírgula dos
livros lidos pelos homens modernos e engravatados.
Ou tal seja
porque aquele homem simples tem a consciência que não precisa para si, nada
mais do que aquilo que possa suas mãos apalpar e os seus braços abarcar. Pois
ele sabe que a vida é breve; que para ser feliz precisa apenas das amizades dos
verdadeiros amigos; do amor dos seus próximos e do olhar terno da amada. E que
quando morrer terá para si apenas a companhia dos vermes em sua tumba a sete
palmos no chão, num fosso que não lhe dará nem o conforto de se virar de posição.
Então, para que essa aparência importante ou acumular frangalhos se tudo aqui
ficará e nada levará. Mesmo em sua simplicidade, ele sabe que caixão
não tem cofre nem gaveta!
Quando tivermos
essa consciência, seremos também felizes com o pouco que tivermos; sem nos
escravizarmos para sua obtenção - quer seja no amor ou nas relações com a
matéria. E se perguntas: claro que sou feliz! Tenho tudo de que preciso;
conseguido com o meu trabalho! Sem nunca ter prejudicado a ninguém. Paz
de espírito? Eu a tenho! E os deuses que se alimentam da nossa carne putrefata,
certamente, hão de confirmar-me isso algum dia no sepulcro.