segunda-feira, 29 de julho de 2013

PACTO




Rasguei meus pensamentos de homem sano e de paz
Ao ver nas estrelas o brilho dos olhos da mulher amada
Contemplei apaixonadamente cada fio de luz fluente
Irradiado da retina dos olhos de Ires a minha Deusa


Não era os olhos dela que eu via na 
noite  escura a brilhar
Era a tremula lanterna da via sobre a minha, nossas cabeças
Mas mesmo assim permaneci quito e em silêncio a suspirar
No meu corpo de menino envolto de sua mãos a chorar

E na solidão da vida a dois me perdi nos arroubos do homem
Não me encontrei no leito, no chão ou no telhado da casa vazia
Estava preso nas garras da morte dos homens e de todos nós
Despido da sorte em perdê-la para outro amado estrondeiro

Quisera eu ser tão nobre quanto meu rival algibeirado de ouro
Andar de alazão aloirado em disparada ao vento das nuvens
Ter no bolso a cobiça de toda donzela enfeitiçada de riqueza
E no coração cravada a espada de amor eterno e luta sem fim

Eu vivi e senti um instante de luz irradiada da vida colorida de paz
E se esse instante não foi suficiente para a minha glória alcançar
Que dispa-me de todo os pelos deste corpo moribundo arquejado
E lança-me ao imundo covil dos homens para vermes alimentar


Marinho Oliveira

segunda-feira, 27 de maio de 2013

UMA GOTA DE VIDA



Sentindo o cheiro dessa terra maldita

De uma mulher rasguei o seu  ventre

E me fiz brotar dos seus urros e berros

Para constituir-me em mísero folguedo

Para não ser devorado tornei-me urso

Neste solo de gentes selvagem e inútil

Fatiando em Norte Sul Leste Oeste

Essa vida socranca e quase imprestável



Comecei a provar da vida no pedaço Sul

A princípio amarga e quase indigesta

Mas fui me acostumando a esse azedume

A empurrar-me para o pedaço do Oeste

Ao sarcástico destino da minha outra fatia


Nesta lambuzei-me de néctares a soberbas flores

Das mais variadas cores sabores e canções

Que tão célere se foi e já me encontro no Leste



Aqui as flores trazem consigo espinhos amargos

No néctar que é parco o ferrão as escondidas

E para enfrentar o lado Norte já me preparo

Donde serão impiedosas as lanças ao urso 

Até que  lhe transpasse coração a derradeira



Entre os pensamentos que  surgem me agora

Nada valeu ou valerá essa torpe e infame vida

Que o descartá-la n'água corrente melhor seria




27/05/2013
Marinho Oliveira

quinta-feira, 14 de março de 2013

VERTIGEM




Das mulheres quero o mais doce carinho
Dos lábios rubros de amor o beijo molhado
Que seja marcado na lembrança a eternidade
Do suor de nossa carne nos sonhos vividos

Quero o olhar que enfeitiça e faz-me criança
Nas cantigas de roda da ciranda cirandinha
Das mãos suadas estreitando nossos corpos
No gemido das unhas a estiram- me a carne

Em teu ventre quero invadir o cálice sagrado 
Do vinhedo do meu corpo derramar-lhe o vinho
Murmurar palavras indecentes aos teus ouvidos
Numa lúdica oração ao prazer do sexo latente


Ah, mulheres!

O que mais pode um homem querer

Que amar e ser amado

Simplesmente


Marinho Oliveira
14/032013

O TURVAR DA AURORA


Estende-se o grande tapete na aurora da vida
A Velha Nefasta lança ao tabuleiro suas peças
Que se alvoroçam em cavar o destino do próprio
Nas entranhas da alma a dilacerar no tempo

Umas são calmas quase sonolentas e mórbidas
Outras são velozes vorazes e famintas de glória
Há também aquelas que se escondem da batalha
Na covardia da vida a fugir de se para si mesma

A Velha Nefasta ri a saciar da desgraça humana
O Caos é o alimento que a entorpece e embriaga
Ela enfastiada recolhe-se da sórdida mesquinhez
Do inerte homem nu como a um verme resignado
...
A entregar-lhe a alma no repousar dos sonho
s

14/03/2013
Marinho Oliveira

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

RATINHO FURÃO



Toda noite lá vem ele
Se esgueirando pelo chão
Rastejando pelos cantos
Como se faz um bom ladrão

Deve se sentir em batalha
Sem fuzil espada ou canhão
Lutando pela sobrevivência
Esse varonil ratinho furão

Na pouca luz ele se camufla
Quase que se perde na escuridão
Atentos os meus olhos encontram
Esse espertinho guerreiro ladrão

Não é grande não é pequeno
Se não é ratinho não é um ratão
Mas toda noite depois da visita
Deixa uma tremenda confusão

No pratinho não aceita comida
Deve ser talvez da sua educação
Cuidados dos pais que lhe ensinaram
Veneno do homem não tem salvação

Não quero vitória nem derrota
Entre nós seria injusta uma luta
Mas se comporta como desertor
Esse ladrão e ratinho safado 

Vou te pedir desta vez seu ratinho
Com carinho cuidado e atenção
Vê se na próxima visita que fizeres
Não derrame a comida no chão

Porque se perco a paciência
Vai junto com ela a compaixão
Arrumo um gato grande e feroz
Para lhe ensinar uma boa lição
...
Ratinho safado – ratinho furão

 Marinho Oliveira

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A CIDADE DOS MORTOS



Que maravilha seria esta bela cidade
Se com carinho fosse por nós bem cuidada
A cidade onde vivem os nossos mortos
Hoje esquecidos  e por nós abandonados

Cruzes escurecidas no tempo da saudade
Dos parentes primos irmãos filhos e pais
Da mulher e do homem um dia amantes
Das juras e promessas para sempre amem

Vigiada pela lagartixa que se banha da luz
A campa em ruína quase se desfaz ao sol
Sobre o ornamento da lápide de mármore
Gravado o tempo da validade de uma vida

Quantos parentes primos filhos irmãos
Homens pais mulheres mães ali a dormir
Esquecidos de nós que lhes juramos amor
Em largos sorrisos e dentes na mesa farta

Hoje esquecidos adormecidos de saudades
Deleitam do silêncio da angustia n'alma
De outrora esquecidas as vãs promesas
Pois os mortos não sorriem e nem choram

Enquanto ali deliciando dessa paisagem
Sentia o vento acompanhar-me entre jazigos  
Cantarolando aos meus ouvidos a canções
Ao contemplar o meu suntuoso leito futuro 

Nenhum parente primo irmão filho ou pais
Nenhum homem mulher ou amante ali eu vi
Nenhuma simples manifestação de carinho
Nenhum ramalhete de flores alí depositodo
Para um ente esquecido um pedaço de nós

Que maravilha seria essa bela cidade
Se com carinho fosse por nós bem cuidada
A cidade onde vivem os nossos mortos
Hoje esquecidos e por nós abandonados

Talvez tenha  esta cidade sido criada
Para de nossos cadáveres ser habitada 
 ...
Que também já não servimos para nada


Marinho Oliveira

DOCE PREGUIÇA




Quanta preguiça em despir do dia
De quando a vida ainda muito valia
O momento mais terno e doce seria
Vê-la transpor os umbrais da porta

Formiguinha tão magrinha a menina
Para seu vestido bastava uma linha
Hoje refeita exuberou em beleza
Que as curvas arregalam-me os olhos

Ai! Como é doce voltar no tempo 
Só para beber uma gota do passado
E mergulhar nos velhos sonhos
Mesmo de pé enquanto acordado

Marinho Oliveira