Brincando no brinquedo construído de
mim, afoguei em ondas que nas quais nunca mergulhei e fui arrebato em pedras que
nelas nunca colidi;
dancei e cantei tangos, valsas, boleros, todas as músicas
e todos os ritmos, mesmo sendo eu um surdo mudo de pés contidos e amordaçado;
tive em meus braços mulheres notáveis e mulheres vulgares, rainhas e princesas,
ninfas, damas e prostitutas, casadas e solteiras sem nunca um corpo de
mulher tocar;
cavalguei em rodeios e fui ovacionado por multidões, domei alazões e ferozes touros que nunca
vi e nunca neles montei;
fui um lenhador sem compaixão, destruidor de florestas
sem nunca uma só árvore cortar, e fui também um rico agricultor produtor e exportador de
grãos sem nunca uma semente semear;
fui astronauta e viajei pelos
continentes desse mundo, conhecendo cada canto desse nosso planeta e todas as
galáxias que compreendem o universo, sem nunca do quintal da minha cama e do meu quarto ausentar;
sem nunca em toda minha vida uma só espada empunhar, fui honroso gladiador e lutei contra feras e selvagens homens somente para
aplacar a febre de sangue dos reis, dos imperadores e dos plebeus que lotavam as arenas
para a sua sede saciar;
Enfim, fui e sou todos os meus pensamentos e lembranças
vividas ou não vividas e que fazem do meu "EU", na construção desse torto brinquedo humanoide que sou, abandonado e esquecido num canto de mundo que sou.
Marinho Oliveira
10/01/2014.