sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

EU, BRINQUEDO





Brincando no brinquedo construído de mim, afoguei em ondas que nas quais nunca mergulhei e fui arrebato em pedras que nelas nunca colidi; 

dancei e cantei tangos, valsas, boleros, todas as músicas e todos os ritmos, mesmo sendo eu um surdo mudo de pés contidos e  amordaçado; 

tive em meus braços mulheres notáveis e mulheres vulgares, rainhas e princesas, ninfas, damas e prostitutas, casadas e solteiras sem nunca um corpo de mulher tocar; 

cavalguei em rodeios e fui ovacionado por multidões, domei alazões e ferozes touros que nunca vi e nunca neles montei; 

fui um lenhador sem compaixão, destruidor de florestas sem nunca uma só árvore cortar, e fui também um rico agricultor produtor e exportador de grãos sem nunca uma semente semear;

fui astronauta e viajei pelos continentes desse mundo, conhecendo cada canto desse nosso planeta e todas as galáxias que compreendem o  universo, sem nunca  do quintal  da minha cama e do meu quarto ausentar;

 sem nunca em toda minha vida uma só espada empunhar, fui honroso gladiador e lutei  contra feras e selvagens homens somente para aplacar a febre de sangue dos reis, dos imperadores e dos plebeus que lotavam as arenas para a sua sede saciar;

Enfim, fui e sou todos os meus pensamentos e lembranças vividas ou não vividas e que fazem do meu "EU", na construção desse torto brinquedo humanoide que sou, abandonado  e esquecido num canto de mundo que sou.

Marinho Oliveira
10/01/2014.