Há dias em a gente está um pouco mais
vulnerável, com certa predisposição para a nostalgia e à percepção de pequenas
coisas que em dias normais, passariam pelos nossos olhos despercebidamente como
algo muito comum ou até mesmo banal. Hoje foi para mim um dia desses. Acordei e
já percebi que a manhã estava diferente, que o sol não estava penetrando as
portas e janelas da casa, coisa que todos os dias quando desperto já o encontro
a visitar-me ainda em minha cama. Então, para surpreendê-lo, me levantei antes que ele se atrevesse a entrar e como o de sempre, cuidei
de atender as minhas necessidades fisiologias e higiene pessoa; fiz tudo isso
sem dar muito bola a essa minha primeira impressão sobre os acontecimentos.
Depois do banho tomado e barba feita, cuidei de preparar um café que o tomei
acompanhado de leite, esse eu fiz questão de conferir a data de validade mesmo
estando ele guardado na geladeira há dias. Certo é que nunca me preocupei muito
com essas coisas, mas hoje me preocupei. Feito o desjejum fui alimentar os
pássaros que crio, uma pequena leva de Oryzoborus Angolensis – pássaro
conhecidos pela maioria dos brasileiros como Curió. Trata-se de uma espécie
muito especial e de um canto maravilhoso; para criá-los tenho autorização dos
órgãos competentes que regulam o manejo da fauna e flora do nosso pais. E
graças aos criadores que, assim como eu,
fazemos por robby e por amor a
natureza, esta espécie ainda existe em nosso pais e dela podemos nos deleitar
do seu mavioso cantar e encanto; pois a ganância e a exploração desenfreada das
florestas, campos e serrados, os incêndios constates, na natureza eles
já estão praticamente extinto pela ineficiência de procriação frente aos
atentados dos homens contra essa e todas as outras espécies. Realizada essa
tarefa, percebi que o pé de jabuticaba que tenho no quintal de casa estava com
sede, corajosamente armei de uma mangueira, abri o registro e este fez com que
a água jorrasse pela boca daquela serpente como se fosse uma chuva fininha como
gotas de prata alvejada pelos raios do sol. Foi nesse instante que
inesperadamente surgiu um João de barro já próximo a mim, e caminhando como
se estivesse dando pequenos saltos dirigiu-se para as gotas da água para se
banhar. Abriu as asas, sacudiu-as ao vento, deixou por um instante aquele
chuveiro e se banhou um pouco de sol correndo pelas penas o bico avermelhado de
terra; deu alguns gritos como se estivesse a chamar algum dos seus e voltou
novamente ao chuveiro para um segundo banho; quando percebi já estava
acompanhado de outro da sua espécie. Ficaram alí por uns quinze minutos e
depois se foram. Mas antes de saírem, apareceu um pequeno beija flor que também
se mergulhou na água como um peixe a voar no ar. Passava da direita para
esquerda, da esquerda para a direita, subia, descia, parava no ar como se fosse
um helicóptero e dava um assovio emitindo um som fino e agudo aos meus ouvidos;
tinha cor esverdeada escura que se misturava com um azul turquesa e num preto
acinzentado, sendo para mim impossível descrever aquela singularidade
multicolorida que vestia aquele ser fantástico! Quando ele se despediu do
banho, eu já com as mãos doendo e um pouco impaciente do serviço que prestava,
resolvi rapidamente fechar o registro cortando a fluidez da água antes que
outro incauto alugasse os meus serviços sem paga. Mas cuidei de limpar um desses
pratos plásticos usados para colocar embaixo dos vasos de plantas, enchê-lo de
água limpa e colocá-lo na sombra do pé de jabuticaba para aliviar a sede de
outros que por alí viessem a passar pela água ou pelo banho. Feito isso, percebi que algumas rosas vermelhas haviam
desabrochado naquela madrugada e exalavam um perfume adocicado no ar tornando
aquele ambiente menos denso. Foi nesse momento que ingnuamente pensei: por que os homens
não podem ser pássaros e os pássaros serem homens? Aposto que teríamos um mundo
melhor.
Marinho Oliveira
22/01/2014