quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

HOMENS e PÁSSAROS



Há dias em a gente está um pouco mais vulnerável, com certa predisposição para a nostalgia e à percepção de pequenas coisas que em dias normais, passariam pelos nossos olhos despercebidamente como algo muito comum ou até mesmo banal. Hoje foi para mim um dia desses. Acordei e já percebi que a manhã estava diferente, que o sol não estava penetrando as portas e janelas da casa, coisa que todos os dias quando desperto já o encontro a visitar-me ainda em minha cama. Então, para surpreendê-lo, me levantei antes que ele se atrevesse a entrar e como o de sempre, cuidei de atender as minhas necessidades fisiologias e higiene pessoa; fiz tudo isso sem dar muito bola a essa minha primeira impressão sobre os acontecimentos. Depois do banho tomado e barba feita, cuidei de preparar um café que o tomei acompanhado de leite, esse eu fiz questão de conferir a data de validade mesmo estando ele guardado na geladeira há dias. Certo é que nunca me preocupei muito com essas coisas, mas hoje me preocupei. Feito o desjejum fui alimentar os pássaros que crio, uma pequena leva de Oryzoborus Angolensis – pássaro conhecidos pela maioria dos brasileiros como Curió. Trata-se de uma espécie muito especial e de um canto maravilhoso; para criá-los tenho autorização dos órgãos competentes que regulam o manejo da fauna e flora do nosso pais. E graças aos criadores que, assim como eu,  fazemos por robby  e por amor a natureza, esta espécie ainda existe em nosso pais e dela podemos nos deleitar do seu mavioso cantar e encanto; pois a ganância e a exploração desenfreada das florestas, campos e serrados, os incêndios constates, na natureza eles já estão praticamente extinto pela ineficiência de procriação frente aos atentados dos homens contra essa e todas as outras espécies. Realizada essa tarefa, percebi que o pé de jabuticaba que tenho no quintal de casa estava com sede, corajosamente armei de uma mangueira, abri o registro e este fez com que a água jorrasse pela boca daquela serpente como se fosse uma chuva fininha como gotas de prata alvejada pelos raios do sol. Foi nesse instante que inesperadamente surgiu um João de barro já próximo a mim, e caminhando como se estivesse dando pequenos saltos dirigiu-se para as gotas da água para se banhar. Abriu as asas, sacudiu-as ao vento, deixou por um instante aquele chuveiro e se banhou um pouco de sol correndo pelas penas o bico avermelhado de terra; deu alguns gritos como se estivesse a chamar algum dos seus e voltou novamente ao chuveiro para um segundo banho; quando percebi já estava acompanhado de outro da sua espécie. Ficaram alí por uns quinze minutos e depois se foram. Mas antes de saírem, apareceu um pequeno beija flor que também se mergulhou na água como um peixe a voar no ar. Passava da direita para esquerda, da esquerda para a direita, subia, descia, parava no ar como se fosse um helicóptero e dava um assovio emitindo um som fino e agudo aos meus ouvidos; tinha cor esverdeada escura que se misturava com um azul turquesa e num preto acinzentado, sendo para mim impossível descrever aquela singularidade multicolorida que vestia aquele ser fantástico! Quando ele se despediu do banho, eu já com as mãos doendo e um pouco impaciente do serviço que prestava, resolvi rapidamente fechar o registro cortando a fluidez da água antes que outro incauto alugasse os meus serviços sem paga. Mas cuidei de limpar um desses pratos plásticos usados para colocar embaixo dos vasos de plantas, enchê-lo de água limpa e colocá-lo na sombra do pé de jabuticaba para aliviar a sede de outros que por alí viessem a passar pela água ou pelo banho. Feito isso, percebi que algumas rosas vermelhas haviam desabrochado naquela madrugada e exalavam um perfume adocicado no ar tornando aquele ambiente menos denso. Foi nesse momento que ingnuamente pensei: por que os homens não podem ser pássaros e os pássaros serem homens? Aposto que teríamos um mundo melhor.

Marinho Oliveira

22/01/2014